Finito. A sensação é estranha quando morre alguém que carrega em todo um background pop e cultural. Anos de decadência e escândalos não podem soterrar coisas incontestáveis. Nunca fui um grande fã, nem me arrisquei nos passinhos, mas incontáveis festinhas soaram sua música e sinto mesmo como o papel de parede de uma época. A admiração é um sentimento mais de reconhecimento de uma carreira que, no auge, atingiu tudo o que poderia atingir, bem pensadas as formas mais variadas de talento, divulgação e espírito da época. Resta a boa obra. E pensar que uma carreira assim, com bom senso, traria tão bons frutos. Não deu…resta a certeza, a paz. Fique em paz, cara!
Realmente, gosto de escrever, e até pratico cartas, quando vejo motivo. Mas sou bem mais leitor. A leitura é como uma viagem sem cobrança, o livro está ali, generoso e sempre disposto. Ele aceita a companhia em qualquer ocasião, faça chuva, sol, esteja a pia cheia de pratos, esteja a casa tinindo de nova. No entanto, minhas fases me levam ao extremo e me comporto como o eremita que recusa tudo. Quer mais é comtemplar a loucura do mundo, seja a balbúrdia tediosa das coisas que nada dizem, seja o ritmo novelesco das engrenagens que se soltam e nos dão, de graça até capítulos curtos e cômicos do que chamamos “ironia comezinha da vida”. Só que preciso e sinto sim, necessidade de escrever. Com ou sem sofrimento.
O erro é mais fácil de notar que o acerto. Em alguns aspectos, acertar significa pôr algo tão em ordem que passa despercebido. Assim pode ser um texto bem escrito: sua fruição é conseqüência de um esforço em torná-lo límpido, puro, simples. Às vezes, uma vida também é desse jeito. Quem me mostrou isso foi Barreto. Ou Geraldo Maciel.
Sabia demonstrar isso no melhor escritório que criou: o das palavras. Não dava conselhos, mostrava-os com arte. Era delicado o meu amigo, mas de um padrão vigoroso, de quem aprendeu com a matéria da vida. E a vida entranhou-se em tudo nos afazeres do contista. Tudo era matéria para a vida e para a arte. Atentem para qualquer conto, pegue um ou outro livro. Está ali. No conto Sandro Moretti não cria rugas, ele escreve: Minha mãe achava que cada um tinha o seu destino. Eu não pensava assim. Agora sei que minha mãe tinha razão. A vida me ensinou que o meu, como de todo mundo, está traçado e que deslizo sobre ele como um trem nos trilhos.
Ainda não me dou conta de sua ausência. É outra das artes de Geraldo Maciel. Tinha os pés exatos para entrar e sair de cena. Imitação do estilo: escrevia como a preparar o dia de viver. Revisava-se. Traduzia-se. Gostava do começo-meio-e-fim. Equipou-se tão bem desse esquema que viveu com plenitude, deixando uma mesa posta com exemplos, um ar de calma urgência e dignidade no ofício literário. Uma criatura tão rara.
A vida que ando colecionando aqui, no meu bairro (assumo a posse sempre do lugar que quero estar) são pequenos flashes banais que não querem colar para formar algo de sentido. Não importa muito. Viver às vezes só pede a sensação de estar vivo – e tomar consciência disso sem imposições maiores do que falava o poeta português: o que em mim sente está pensando.
Então saio na hora do crepúsculo ou no vai-e-vem dos carros, ou mesmo na sensação de que a tarde morre por cima do formigueiro humano. Não, não é uma confissão enquadrada em obviedades. Eu cruzo uma pequena parte da cidade com uma identidade que ele, o bairro, conseguiu impor. Eu sou um pequeno grão nesse areial. Com a sensação de que pesa a sacola do supermercado e as sandálias que deixam, agora, meus pés respirarem.

Literatura feita por mulheres e homens que se fingem de. Este é o mote do Escritoras Suicidas, site de literatura onde poemas e contos são produzidos segundo motes. Com edições temáticas, a editora Silvana Guimarães agita a cena eletrônica com provocação e bom gosto.
Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal-iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.
márcia maia
(Conto surrupiado do site Mulheres Suicidas, em homenagem a uma amiga muito querida)
Eu gosto de títulos. Ontem mesmo estava com um, a folhear curiosamente no perímetro de uma livraria: A arte de recusar originais. Não vou citar o autor ainda. Fica para uma próxima. Eu gostaria de ter um escritório só de títulos. Estas cápsulas de sentido vendem horrores, quando bem produzidas. Olha aí o Campos de Carvalho. Não vendeu muito em vida, claro. Mas estava na frente de sua época. Como não se encantar com títulos assim (das obras dele)?: A lua vem da Ásia. A chuva imóvel. Vaca de nariz sutil. E essa maravilha que dispara em proparoxítonas: O púcaro búlgaro. Está bom, gastei um monte de títulos de um só autor. Chamo isso de preferência compulsiva, o que pode redundar, mas me deixa satisfeito. Aguardem. Ando remexendo minha gaveta. E o blog Verdura, soube, está atualizado, de uma amiga muito querida. Vão lá, que a preguiça pode virar utopia.
Os seios de minha amada
não impedem a luz do sol
são altares onde as andorinhas
brincam de existir
um pouco mais ao sul
(corte rápido e vermelho)
descobri um pomar-para-dedos
onde o pouso de barco
abranda uma língua de sede
onde os poros da carne
não me tomam por cego
mesmo sem os tatos
da luz.
Ronaldo Monte, contista e membro do clube do conto, tem uma predileção: pinçar-me como personagem nas situações mais vexatórias. Eu, claro, me divirto. São vários contos cometidos ao sabor das circunstâncias. Já tentei vingar-me usando-o, o contista, como personagem. Só saiu-me um conto mal-ajambrado. Este, disponível aqui e no blog do Rona, merece crédito: tão distante e tão perto de mim.
ROUPA ÍNTIMA
Não se deve deixar roupas íntimas penduradas na maçaneta interna da porta do banheiro. É possível que elas sejam esquecidas lá por muito tempo e não se pode medir as consequências desse esquecimento.
André havia se mudado para aquele apartamento há menos de uma semana. Era a primeira noite de sexta-feira que passava na nova casa. Por isso, a primeira coisa que quis fazer quando chegou do trabalho foi tomar um longo banho. Depois ia bebericar um uísque e pensar com quem fazer a inauguração. Uma namorada ou um punhado de amigos mais chegados que não reparassem na desarrumação.
Entrou no banheiro e sorriu com o hábito de fechar a porta. Lembrou-se que Antônio Maria dizia que a única vantagem de morar só é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas a água já escorria morna. A porta aberta ficava para a próxima vez.
André ainda esfregava a cara com a toalha quando viu um sutiã pendurado na maçaneta da porta. Bem que podia ser de uma de suas namoradas, quis pensar, mas logo se lembrou que nenhuma delas ainda estivera ali. Só podia ser da antiga inquilina.
Por um súbito e inexplicável pudor, André não tocou no sutiã. Não era direito pegar numa coisa tão íntima de uma pessoa que não conhecia. A toalha já enrolada na cintura, sentou-se na bacia sanitária e ficou estudando a peça pacientemente. De aparência um pouco desgastada, parecia reservado ao uso doméstico ou em saídas rápidas sob uma camisa de meia. Os bojos eram de tamanho mediano, mas o elástico desgastado sugeria um excesso de volume a ser sustentado. Seios ligeiramente fartos, concluiu André. E imaginou a totalidade do busto que ali se ajustaria.
Concluída a construção da parte superior, passou a deduzir o restante do corpo que habitara o seu banheiro. Simetria entre busto e quadris era coisa de miss dos anos sessenta. André preferia ver as ancas um pouquinho mais estreitas que o perímetro superior, mas fartas o suficiente para delinear uma curva descendente em direção ao ventre, estando a dona lendo um livro deitada de lado, uma das mãos apoiando a cabeça.
A cabeça. Eis um enigma enorme para André. Um corpo assim exigia cabelos longos. Longos e negros. Mas a mulher não podia ficar assim, só cabelos. Precisava de um rosto com olhos para ler o livro. Teria óculos, como toda mulher que lê na cama. E uma boca com lábios carnudos para balbuciar uma frase aqui e ali. E precisava de mãos delicadas para segurar o livro e passar as páginas. Faltavam ainda coxas, pernas e pés para que a dona se mexesse a cada passagem mais excitante da leitura.
André se vestiu apressado e deixou o quarto sem fazer barulho para não atrapalhar a leitura da mulher. Foi para a sala, preparou seu uísque, mas não telefonou para ninguém. Bebericou a dose e ali mesmo, no sofá, caiu no sono.
Quando André acordou na manhã do sábado, a luz do quarto ainda estava acesa. Escutou virar uma página de livro. Viu que não tinha nada para o café a manhã. Calçou as sandálias, levantou-se sonolento e falou alto em direção ao quarto: vou ali na padaria comprar alguma coisa. Volto já.
Ronaldo Monte
