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Tríptico (trecho)
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem idéias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, é o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
HERBERTO HELDER
A partir de hoje este blogue entra numa espécie de recesso, com atualizações mais espaçadas, ao sabor das conveniências de fim de ano.
Deixo aqui também um pequeno balanço, mínimo, em que entra um pouco da sinceridade e esperança que tenho por vestimenta.
As reflexões que porventura fiz ainda estão em processo. Aliás, tudo é processo. O ano literário não teve uma grande variedade, poucos lançamentos em que fui, mas também devo registrar pequenas alegrias nessa área. Mais um livro infantil concluído, além dos meus livros já editados (embora um deles esteja sob observação de uma editora). Participação na Fliporto, convivência com meus amigos, mudança também de casa e direção, e as lições agridoces da sempre imprevisível e necessária relação humana.
E a família, cada vez mais no meu sangue, esteja onde eu estiver.
A necessidade de persistir também reflete nas deliciosas tardes de sábado, com os amigos do Clube do Conto, completando mais um ano com renovadas visitas e aquisições.
Outras formas de encontro, de idéias e projetos, se divisam no horizonte. A esperança de que poderei investir mais em transmitir minhas idéias sobre literatura, poesia, leitura, também estão na beira da agenda.
O retorno ao mundo blogueiro me fez bem. Os poucos e diletos amigos que me visitam causam-me imensa alegria, por manter o incentivo necessário à expressão do que também sou feito: palavra que me redime do vazio.
Um Feliz Natal!
Na casa do romancista a porta da frente atraía histórias. Na verdade, personagens inconvenientes que, por algum motivo secreto, queriam saber mais sobre o sujeito que inventava vidas. Eram tolos. Respectivamente, um carteiro, um mendigo, a moça da avon. O romancista sentia no ar uma vibração de míssil, um risco no radar, um deja-vu. Chegava à porta e abria de par em par. E bastava olhar para o visitante, sentia uma enorme dor de barriga (era essa a reação ao querer escrever) e ia com maços de papéis para o banheiro. Os visitantes o achavam louco e saiam irritados.
Houve um tempo que se sentiu bloqueado. A mulher o tinha abandonado e os filhos só ligavam para pedir dinheiro através de uma conta. Desejava a vizinha, tinha uma foto de um flagrante no quintal, pernas descobertas, só não sabia que estava morta há alguns anos. Tinha rendido um conto, infelizmente, recusado por uma revista. Restava-lhe o recurso da porta. Mas as pessoas não mais o visitavam. O carteiro pulava a casa. O mendigo arrumara um emprego. A moça da avon fora assassinada. Agora abria a porta de hora em hora. Até de madrugada. Não encontrava nada. Nem pessoas, nem eventos. Não chovia, nem acontecia terremoto, nem lufadas de vento.
Ele acreditou piamente que não ia escrever mais nada. Que a vida fronteiriça entre o que acontecia lá fora e na sua casa negava informação e lirismo. Decidiu vender a casa, fechar tudo, ir para o Caribe. Como não tinha nenhum objeto de valor, a não ser sua vida, que era móvel, deixou a porta levemente entreaberta. Como uma página em branco.
Tabacaria II
(ou um jeito atrevido de responder a Álvaro de Campos)
Do que sou feito
não me dou ao direito de saber do que sou feito.
Não sei do que sou feito, é uma certeza.
Tenho outras certezas.
Tenho belas e irreconhecíveis certezas.
São cadafalsos, me tiram o chão.
Estão no sangue, no mistério das coisas,
que não são coisas, mas maneiras de pôr o mundo
segundo certas posições, diagramas, teimosias.
Minha realidade, minha circunstância, essa clara
disposição de ir morrendo, um pouco em cada gesto.
Em cada poema, em cada tropeço, uma rua percorrida por vez,
em cada bonde perdido, em cada senha esquecida,
em cada dia suspenso nas bolhas do relógio,
numa religião inventada, numa fazenda distante
em que desejasse ferir a terra que um me tragaria.
Sou feito da minha falta.
Onde decidir que permanência? Mesmo à janela de uma aldeia
que não é minha, quando ouço pela primeira vez balidos
de ovelhas, esquecido do meu país de origem,
o que em mim decide o que nunca tive? A vida inventada
pode ser a mesma e original vida que vivem por nós.
Vivem-me os números, o que pensam de mim, meus pecados,
terras em que tatuei a forma efêmera dos meus sapatos,
rabiscos em alguma agenda esquecida, os livros que li,
tudo isso numa rua de sonho ou lembrança ou pó.
Não preciso provar que estou vivo. Também os fantasmas
somem ou aparecem mil e uma vezes ao dia e nem dão por isso.
Mesmo em excesso sou menos vivo do que aparento e nada
me assombra mais, nada é mais patético do que estar assombrado
em pleno sol, esse manto que nada mais é do que um cobertor
cansado sobre o ciclo da vida.
À parte tudo isso, tomo o meu café, de gole em gole
e vejo pequenos sinais que não me sabem a códigos,
nem me apetece colar teorias sobre a multidão e os rostos
e que histórias banais ou extraordinárias podem sair dali.
Resta-me deixar em versos
(sombra de outros versos e bem melhores)
o que não fiz, o que nunca farei,
- os materiais da vida não aceitam pactos
e suas tramas parecem existir tanto quanto
a Biblioteca de Alexandria.
E ainda acredito, sim, que há metafísica bastante nos chocolates.

Gene Kelly e Cyd Charisse
A Cahiers du Cinéma, publicação francesa considerada uma das mais importantes críticas do cinema mundial, publicou um livro que elege os cem filmes obrigatórios em qualquer cinemateca. Foi fundada em 1951 por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca. Cineastas consagrados como Éric Rohmer, François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol já escreveram para a publicação.
Confira aqui os 20 primeiros filmes da lista.
1. Cidadão Kane (1941) – Orson Welles
2. O Mensageiro do Diabo (1955) – Charles Laughton
3. A Regra do Jogo (1939) – Jean Renoir
4.Aurora (1927) – Friedrich Wilhelm Murnau
5. O Atalante (1934) – Jean Vigo
6. M, o Vampiro de Dusseldorf (1931) – Fritz Lang
7. Cantando na Chuva (1952) – Stanley Donen & Gene Kelly
8. Um Corpo que Cai (1958) – Alfred Hitchcock
9. O Boulevard do Crime (1945) – Marcel Carné
10. Rastro de Ódio (1956) – John Ford
11.Ouro e Maldição (1924) – Erich von Stroheim
12. Rio Bravo – Onde Começa o Inferno (1959) – Howard Hawks
13. Ser ou Não Ser (1942) – Ernst Lubitsch
14.Era uma Vez em Tóquio (1953) – Yasujiro Ozu
15.O Desprezo (1963) – Jean-Luc Godard
16.Contos da Lua Vaga (1953) – Kenji Mizoguchi
17.Luzes da Cidade (1931) – Charlie Chaplin
18.A General (1927) – Buster Keaton
19.Nosferatu (1922) – Friedrich Wilhelm Murnau
20.A Sala de Música (1958) – Satyajit Ray
E o resto da lista clique aqui
Está próximo o Natal, uma época em que reminiscências se misturam com tomadas de posição. Além de algumas certezas. Época de presentes? Ótimo ganhar presentes. Eu que sou pai sei bem o que é isso. A cada época, cada degrau, vejo minha filha e constato acima de tudo cumplicidade. Fiz o texto que segue alguns anos atrás. É uma forma de dizer o quanto a amo, nesse rara e fiel relação que perdura, que melhora com o tempo.
* * *
Uma vez pensei na infância como um vaso de gerânios, um vaso esteticamente posto numa janela com paisagem ao fundo. Não se sabe exatamente o que é a infância no momento em que vivemos a tal. Assim o efeito da natureza dos gerânios: por si só eles espantam, causam atenção. Imaginar a paisagem com eles, duplo efeito, dupla carpintaria do olhar. Lembro o que era a minha infância de menino e continuo tendo a chance de ser o mesmo menino por dentro, um pouco mais envelhecido com os mesmos brinquedos. E pronto para ser confidente de minha filha.
Aliás, uma menina em que me pego no espanto, como se eu a flagrasse no bico de pena, tentando entender seus contornos psicológicos, sua personalidade (um gerânio saindo lentamente). Uma menina que repete outros rituais da descoberta. Brinca com as palavras no lugar do dominó ou do baralho.
Ainda não é a adolescente, mas posso divisar a linha desse horizonte de conflitos. Posso demarcar noites de conversa: a substituição das histórias com finais felizes pela aceitação da realidade com finais intercambiáveis. Finais abertos. Com um olhar de espanto, um olhar clariceano, me pego desenhando suas camadas, seus olhares de reconhecimento do terreno da vida. Menina irrequieta, filha do menino que pára e pensa o que é ser pai. Bem sei o que é isso: minha inquietude não me fecha no compartimento de minha geração. Antes, me anima a tocar os extremos.
Minha filha é um vaso de gerânios, é um toque para a linguagem. Não há nenhuma urgência nela. Ela cresce acima do tempo com a propriedade dessas folhas que sustentam uma paisagem, independente de qualquer estação. De onde ela retira suas frases, eu não sei. Imagino um baú de frases novinhas, a espera da cobertura dos primeiros significados. Para ela, a palavra ciúme é um brinquedo em que ainda não soube o botão para acionar. Ou desilusão, ou saudade, que ainda vão ganhar novos ângulos. Os filhos estão voltados para as próximas horas. A antiguidade para eles é uma idéia nova, quase futura.
A filha que tenho não sabe da minha infância, a não ser que eu me disponha a ser a maturidade dela. De puxar para um canto do sofá e falar do que mudou da minha para a sua infância. Sobretudo porque a infância de uma menina tem outras nuanças. Outros silêncios, outras as maneiras de preencher o dia, outro o calendário, outros os medos. Quero entender minha filha de modo simples, mas ela se adianta e me entende com uma fórmula mágica. Quem conta as histórias? Ela. Quem me dá notícias do mundo pequenino? Ela. Sempre estou a par da cartilha das coisas claras. A lição do presente é o futuro dormindo no quarto ao lado. A mão do tempo é a duplicação da minha mão, que acaricia seu rosto, o rosto de minha filha, pacientemente pintada em aquarela
Um comercial que só os japoneses poderiam conceber…

Renato Alarcão in A cartomante
A minissérie Capitu já terminou e ainda fico na dúvida se gosto ou detesto. Eu tenho essa mania, uma coisa no calor do momento me chama a atenção, e às vezes, me nubla – sobretudo em momentos em que tenho mil coisas para resolver e minha cabeça fica um tumulto. Depois, mais descansado, paro e penso. E leio matérias esclarecedoras que coloca um outro ângulo…por sinal, o ângulo que coincide com o que eu gostaria de ver. Acho que a coluna do Diogo Mainardi (veja no blog de Amanda K)tem suas sacadas sim. Os carvalhistas de plantão que me perdoem, mas ainda assim preferia ver a adaptação de Dom Casmurro com a pena da galhofa e da melancolia, um pouco menos over, menos circense. Até porque, como o amigo Linaldo Guedes citou, qual foi a última adaptação de fôlego que seguiu um bom e velho esquema começo-meio-fim? Tudo agora são pirotecnias, como se só valessem, na transposição do papel para a tela, unir obra e espetáculo visual, em detrimento até da alma narrativa da história. Gostei, confesso, de muitas cenas da minissérie – e os olhares de ressaca foram fiéis. Não tiro o capricho cenográfico nem as sacadas visuais de Luiz Fernando Carvalho. Mas Machado já é denso o suficiente, tem texto que competentemente levaria força dramática e humor em doses fartas numa adaptação fiel sem estar sob a lona do circo.
Sobre conto e roteiro
Segunda-feira, ontem, foi um dia interessante para mim. Fui convidado por Bertrand Lira para uma conversa com sua turma de Roteiro, lá no Decom-UFPB. Na pauta do encontro, para conversar sobre adaptação e também um comentário crítico sobre dois contos meus: A mulher inflável e Casa de bonecas. Eu sempre vejo com simpatia esses encontros para falar de literatura, e quem sabe, aprender um pouco mais outros olhares. E esse estímulo é minha melhor alavanca. Fica o bom registro de mais um momento que guardo com carinho.
Os argonautas
Os mortos com seus sapatos ébrios.
Quem os detém? Beberam os licores
da perda e andam por corredores
com suas certezas de pó, desafagos,
suas bíblias da inércia.
Parecem dizer algo, anúncio de verme.
Às vezes, cismam e por instantes
folheiam o vento, habitam
uma fotografia, pesam uma lágrima.
Não os tivessem tocado, e o batismo
geral ou a relva inconcebível
voltariam a arquivá-los
numa lua de esquecimento.

De hoje até domingo, a partir das 17h na praça da Igreja de Nossa Senhora de Fátima se realizará o 1° Bazar de Natal do Miramar, promovido pelo “Espaço da Criação”, o mais novo núcleo de arte, artesanato e literatura de João Pessoa.
O Espaço da Criação nasceu da necessidade de expansão do atelier da artista plástica Veruschka Guerra. O local que será inaugurado no dia do evento, oferece cursos de pintura em tela e tecido, desenho artístico, redação criativa, poesia e oficinas como as de caixas e sabonetes artesanais. Ainda na área de literatura será formado um Clube de Leitura para os aficionados por livros. Uma loja de artesanato exclusivo e o atelier de artes plásticas, onde o público poderá ver a produção da artista, complementam o espaço.
O Bazar terá parte da renda destinada à reforma da Igreja e no dia serão arrecadados, para quem puder contribuir, material de higiene pessoal para a Vila Vicentina (sabonete, shampoo, desodorante ou creme dental).
