A vida que ando colecionando aqui, no meu bairro (assumo a posse sempre do lugar que quero estar) são pequenos flashes banais que não querem colar para formar algo de sentido. Não importa muito. Viver às vezes só pede a sensação de estar vivo – e tomar consciência disso sem imposições maiores do que falava o poeta português: o que em mim sente está pensando.
Então saio na hora do crepúsculo ou no vai-e-vem dos carros, ou mesmo na sensação de que a tarde morre por cima do formigueiro humano. Não, não é uma confissão enquadrada em obviedades. Eu cruzo uma pequena parte da cidade com uma identidade que ele, o bairro, conseguiu impor. Eu sou um pequeno grão nesse areial. Com a sensação de que pesa a sacola do supermercado e as sandálias que deixam, agora, meus pés respirarem.

2 comments
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Maio 19, 2009 às 8:58 pm
raldianny
Adorei André. Por sinal, que bairro é esse de que vc fala?
Junho 1, 2009 às 7:31 pm
Roberta
A sensação de estar vivo inaugura todas as possibilidades. Deixar-se viver à luz do crespúsculo já é tão doce tanto! “Tomar consciência disso sem imposições maiores” é um grande ato, em seu texto conduzido com a beleza necessária da simplicidade poética, despida de afetações. Da aparência de banal se extrai o sumo dessa poesia e o da vida. Então, não importa muito realmente se isso tudo forma ou formará “algo de sentido”. O sentido é a pureza que se colhe da estrada, ou se retira dela, a cada partida. O que se vê quando “a tarde morre por cima do formigueiro humano” é que há muitas vidas e sobrevidas, mas alguém, de um jeito cândido, viveu e sentiu em muitas vias, escreveu com a peculiaridade de poeta seu pensamento-sensação. Nem um grande sistema explicaria. É só vida, e que inspira.