O fato ganhou proporções imprevistas até para quem achava que o acidente era de rotina. Escadas rolantes, no entanto, são dos meios de transportes mais seguros que se tem notícia. Isso até aquela manhã em que dois adolescentes, sendo a mais nova com 17 anos, e um rapaz que carregava uma mochila, foram tragados por um degrau defeituoso, fazendo com que as lâminas de encaixe servissem como trituradores. Daniela foi a primeira a notar algo estranho. Ela estava a 7 degraus das vítimas e notou o esguicho de sangue e um barulho, como se uma máquina de caldo de cana cuspisse bagaços por fora. Em pouco tempo, respingados e em pânico, tentaram por todos os meios convencer os outros que no fim da escada acontecia um acidente (aliás, o acidente em si estava em processo, dado os resquícios de gritos e muita dor da adolescente, mutilada até o quadril mas ainda consciente da mordida).

A longa escada, uma das maiores da região, fora equipada com poderosas engrenagens do tipo em que qualquer coisa que pisar o degrau será levada, sob quaisquer circunstâncias, ao piso superior. Como agravante, as novas levas de passageiros não estavam nem aí com o tumulto – a turma sabedora do acidente forçando a turma louca pela liquidação da loja de eletrodomésticos – e fingiam fleuma e determinação em avançar, mesmo com a escada subitamente aos solavancos. A essa altura, apenas uma cabeça esmigalhada despedia-se aos poucos, a beira da bocarra de ferros, sendo engolida e dando início a mais uma aceleração, enquanto os vigias do shopping, munidos de walk-talkies, solicitavam reforços para conter o tumulto e possíveis novas vítimas.

Independente do shopping ainda ter como bons serviços os elevadores panorâmicos, e mais um grupo de senhoras – junto com a adolescente e testemunha ocular do primeiro acidente – entalarem e sofrerem as primeiras mutilações, a loja em liquidação, a esquerda da escada rolante, continuava anunciando suas ofertas para os clientes que, com algum cuidado, pulavam ao modo indiana jones os degraus e chegavam, pedindo alguma coisa para limpar do sangue e claro, sacar o cartão de crédito ainda intacto.

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No período de férias aproveito para colocar as leituras em dia. E olhe que o balaio só aumenta. Por conta da minissérie Maysa, exibida na Globo, estou lendo a biografia escrita pelo Lira Neto, muito reveladora, muito bem escrita. Aliás, o próprio criticou a minissérie por simplificar a cantora, além de distorcer muitos fatos, o principal deles, a supressão de Nara Leão que parece nunca ter existido.

Também leio O Mal de Montano, romance de Enrique Villa-Matas que trata, através de um personagem, da obsessão pela literatura. No mínimo interessante, mas que pode algumas vezes tornar-se repetitivo e pretensioso. Só vou saber lendo-o.

Por último, terminando A viagem do elefante, do Saramago. Sempre um prazer ler o autor de Ensaio sobre a cegueira. E este romance consegue unir leveza e peso. Muito bom.

O ciclista

à flor veloz

colhe o tempo

(pedal)

pé ante perigo

no risco de dar consigo

centauro de rodas e aros,

meio homem, meio

de transporte

a pena da bicicleta

escreve ruas

até que uma esquina

engatilha o ciclista

e dispara –

a pólvora do instante

o ciclo da vida

tudo pássaro

e passageiro.

Comecei a me achar. Não preciso ir muito além do que existe, onde existo. A voz da professora é tônica, pós-tônica, pré-tônica, fala as palavras com todas as letras.

– Venha ao quadro-negro!

Evidente e correto: mas hesito. Aliás, nem gosto tanto assim. O colégio já é perto de minha casa, é manhã, tempo e espaço não são inimigos. A professora ganhou um rosto e um corpo e tem um ar mais maternal. Ensina tudo. Inclusive boas maneiras. Se o menino ao lado cutuca o nariz, disfarça bem.

– Regra de três simples: uma carroça percorre 10 km em duas horas, em quantas horas…

O desejo que conhecer a resposta das coisas. Com outra roupagem. Parece que um pirata, um vilão se esconde atrás de um problema de matemática. O mundo é pequeno e pode ser apreendido em quatro matérias, dois tipos de atividade (dever de classe, de casa), muita cópia, ditado, um recreio bobo.

Estou numa escola pública, afinal. De dimensões minúsculas. Pequena, com um pátio no centro e classes circundantes. Sua anatomia pedagógica é enfadonha. O terror de ter saído do útero está diluído. No meio do burburinho das vozes do recreio poderia até garimpar outros sons, quiçá os domésticos: minha mãe lavando roupa no tanque: o colégio mora na mesma rua de minha casa.

É o terceiro ano. Aos poucos, vou me soltando. Para o quê? A idéia que tenho de educação é vaga. Não questiono: Deus criou o céu e a terra, os dias e as semanas, as aulas e as folgas. Por uma lei estranha, as folgas, quando longas, são curtas; as aulas, quando curtas, infinitas.

Com o tempo, vou tomando gosto por História do Brasil. Já tem paladar. Livros com gravuras, fatos históricos, um passado imutável. Tiradentes impressiona pelo nome. Capitanias hereditárias não soa, nem ressoa. Ciências, assim no plural. Os planetas. Os estímulos continuam vagos. Estou me encontrando?

Ainda cometo, por acaso, desvios de disciplina.

Uma idéia de heroísmo tolo, quando se quer impressionar a menina mais bonita da classe. Se bem que é quase opressiva a timidez com que me vestia. A porta da classe era um portal entre meu mundo e aquela imensa e desconfortável sensação de tribunal que uma classe cheia causava. Respirar aliviado e ter ao alcance uma janela, ver a natureza.

Adoro a chuva. Passo a gostar do recreio.

Chuva e recreio. Brincamos na lama, chapinhantes. Eu e meus colegas. A brincadeira se estende além do tempo no beco do recreio, a professora não deixa por menos. “Pinto molhado não entra na sala de aula”. E acabou me mandando embora.

Daquele ano eu só lembro bem o céu nublado e a liberdade dada de improviso.

Já é o início de 2009 e entre cobranças e adiamentos, estou eu aqui de novo, pronto pra outra. Eu levo um tempinho a mais para me tocar que o ano começou. E tomar conhecimento de que coisas acontecem.

Como estou de férias, meu ritmo está mais calmo. Comecei o ano pondo as leituras em dia, os filmes em dia, os escritos idem. Com novo material, um livro infantil e voltando a ter a alegria de compartilhar contos no Clube do Conto.

Este ano também começo a ter idéias para compartilhar um pouco o meu gosto por leituras e preparo, se possível, uma oficina de texto, redação criativa.

No mais, se não escrevi ainda em diário (uma agenda na mão sempre me instiga a escrever mais que contas a pagar…) é porque acho melhor o espaço virtual. Tentarei, um pouco como Borges, escrever a vida em ficção do qual faço parte, porque a literatura sempre substitui com relativa segurança, a pouca vida que insiste em grassar em dias inócuos.

Felicito ainda as candidaturas de Ricardo Anísio e Antonio Mariano para a Academia Paraibana de Letras. São pessoas culturais, com bagagem para isso.

E agradeço a continuidade das velhas amizades, além da imprevisibilidade de outras novas que aparecem no horizonte.

Bom dois-mil-e-nove para todos.

Tríptico (trecho)

 

 

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

– eu não sei como dizer-te que cem idéias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

– E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

– não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço –

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, é o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

 

que te procuram.

 

HERBERTO HELDER

A partir de hoje este blogue entra numa espécie de recesso, com atualizações mais espaçadas, ao sabor das conveniências de fim de ano.

 

Deixo aqui também um pequeno balanço, mínimo, em que entra um pouco da sinceridade e esperança que tenho por vestimenta.

 

As reflexões que porventura fiz ainda estão em processo. Aliás, tudo é processo. O ano literário não teve uma grande variedade, poucos lançamentos em que fui, mas também devo registrar pequenas alegrias nessa área. Mais um livro infantil concluído, além dos meus livros já editados (embora um deles esteja sob observação de uma editora). Participação na Fliporto, convivência com meus amigos, mudança também de casa e direção, e as lições agridoces da sempre imprevisível e necessária relação humana.

E a família, cada vez mais no meu sangue, esteja onde eu estiver.

 

A necessidade de persistir também reflete nas deliciosas tardes de sábado, com os amigos do Clube do Conto, completando mais um ano com renovadas visitas e aquisições.

 

Outras formas de encontro, de idéias e projetos, se divisam no horizonte.  A esperança de que poderei investir mais em transmitir minhas idéias sobre literatura, poesia, leitura, também estão na beira da agenda.

 

O retorno ao mundo blogueiro me fez bem. Os poucos e diletos amigos que me visitam causam-me imensa alegria, por manter o incentivo necessário à expressão do que também sou feito: palavra que me redime do vazio.

 

Um Feliz Natal!

green_doorNa casa do romancista a porta da frente atraía histórias. Na verdade, personagens inconvenientes que, por algum motivo secreto, queriam saber mais sobre o sujeito que inventava vidas. Eram tolos. Respectivamente, um carteiro, um mendigo, a moça da avon. O romancista sentia no ar uma vibração de míssil, um risco no radar, um deja-vu. Chegava à porta e abria de par em par. E bastava olhar para o visitante, sentia uma enorme dor de barriga (era essa a reação ao querer escrever) e ia com maços de papéis para o banheiro. Os visitantes o achavam louco e saiam irritados.

Houve um tempo que se sentiu bloqueado. A mulher o tinha abandonado e os filhos só ligavam para pedir dinheiro através de uma conta. Desejava a vizinha, tinha uma foto de um flagrante no quintal, pernas descobertas, só não sabia que estava morta há alguns anos. Tinha rendido um conto, infelizmente, recusado por uma revista. Restava-lhe o recurso da  porta. Mas as pessoas não mais o visitavam. O carteiro pulava a casa. O mendigo arrumara um emprego. A moça da avon fora assassinada. Agora abria a porta de hora em hora. Até de madrugada. Não encontrava nada. Nem pessoas, nem eventos. Não chovia, nem acontecia terremoto, nem lufadas de vento.

Ele acreditou piamente que não ia escrever mais nada. Que a vida fronteiriça entre o que acontecia lá fora e na sua casa negava informação e lirismo. Decidiu vender a casa, fechar tudo, ir para o Caribe. Como não tinha nenhum objeto de valor, a não ser sua vida, que era móvel, deixou a porta levemente entreaberta. Como uma página em branco.

Tabacaria II

(ou um jeito atrevido de responder a Álvaro de Campos)

 

Do que sou feito

não me dou ao direito de saber do que sou feito.

Não sei do que sou feito, é uma certeza.

Tenho outras certezas.

Tenho belas e irreconhecíveis certezas.

São cadafalsos, me tiram o chão.

Estão no sangue, no mistério das coisas,

que não são coisas, mas maneiras de pôr o mundo

segundo certas posições, diagramas, teimosias.

 

Minha realidade, minha circunstância, essa clara

disposição de ir morrendo, um pouco em cada gesto.

Em cada poema, em cada tropeço, uma rua percorrida por vez,

em cada bonde perdido, em cada senha esquecida,

em cada dia suspenso nas bolhas do relógio,

numa religião inventada, numa fazenda distante

em que desejasse ferir a terra que um me tragaria.

 

Sou feito da minha falta.

Onde decidir que permanência? Mesmo à janela de uma aldeia

que não é minha, quando ouço pela primeira vez balidos

de ovelhas, esquecido do meu país de origem,

o que em mim decide o que nunca tive? A vida inventada

pode ser a mesma e original vida que vivem por nós.

Vivem-me os números, o que pensam de mim, meus pecados,

terras em que tatuei a forma efêmera dos meus sapatos,

rabiscos em alguma agenda esquecida, os livros que li,

tudo isso numa rua de sonho ou lembrança ou pó.

 

Não preciso provar que estou vivo. Também os fantasmas

somem ou aparecem mil e uma vezes ao dia e nem dão por isso.

Mesmo em excesso sou menos vivo do que aparento e nada

me assombra mais, nada é mais patético do que estar assombrado

em pleno sol, esse manto que nada mais é do que um cobertor

cansado sobre o ciclo da vida.

 

À parte tudo isso, tomo o meu café, de gole em gole

e vejo pequenos sinais que não me sabem a códigos,

nem me apetece colar teorias sobre a multidão e os rostos

e que histórias banais ou extraordinárias podem sair dali.

 

Resta-me deixar em versos

(sombra de outros versos e bem melhores)

o que não fiz, o que nunca farei,

– os materiais da vida não aceitam pactos

e suas tramas parecem existir tanto quanto

a Biblioteca de Alexandria.

 

E ainda acredito, sim, que há metafísica bastante nos chocolates.

cantando_na_chuva

Gene Kelly e Cyd Charisse

A Cahiers du Cinéma, publicação francesa considerada uma das mais importantes críticas do cinema mundial, publicou um livro que elege os cem filmes obrigatórios em qualquer cinemateca. Foi fundada em 1951 por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca. Cineastas consagrados como Éric Rohmer, François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol já escreveram para a publicação.

 

Confira aqui os 20 primeiros filmes da lista.

 

1. Cidadão Kane (1941) – Orson Welles

2. O Mensageiro do Diabo (1955) – Charles Laughton

3. A Regra do Jogo (1939) – Jean Renoir

4.Aurora (1927) – Friedrich Wilhelm Murnau

5. O Atalante (1934) – Jean Vigo

6. M, o Vampiro de Dusseldorf (1931) – Fritz Lang

7. Cantando na Chuva (1952) – Stanley Donen & Gene Kelly

8. Um Corpo que Cai (1958) – Alfred Hitchcock

9. O Boulevard do Crime (1945) – Marcel Carné

10. Rastro de Ódio (1956) – John Ford

11.Ouro e Maldição (1924) – Erich von Stroheim

12. Rio Bravo – Onde Começa o Inferno (1959) – Howard Hawks

13. Ser ou Não Ser (1942) – Ernst Lubitsch

14.Era uma Vez em Tóquio (1953) – Yasujiro Ozu

15.O Desprezo (1963) – Jean-Luc Godard

16.Contos da Lua Vaga (1953) – Kenji Mizoguchi

17.Luzes da Cidade (1931) – Charlie Chaplin

18.A General (1927) – Buster Keaton

19.Nosferatu (1922) – Friedrich Wilhelm Murnau

20.A Sala de Música (1958) – Satyajit Ray

 

E o resto da lista clique aqui

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