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A cama, um dispositivo

 

A cama é uma imensa planície, uma nuvem acolchoada onde os resquícios de geometria nem sequer sonha o que planeja: sofre a emboscada de quem a levite nos quatro pontos de sustentação de uma maneira tal que os degraus de espuma se misturam aos andaimes da lenta e sutil pequena morte, uma leve ressonância de trem em repouso, atalho forjando os arbustos, recorte de algodão e nuvens, uma ou outra avalanche ou marolas de pano, algodão e linho. Condado em que se entrelaçam desejo e forma, em que outro código é uma superfície acima vigiada pela matéria de que não somos feitos. A cama redime o tempo tenso em que temos de intervalo entre acordar e adormecer; por ela a musculatura do sangue seria eternamente seu cobertor.

 

A escada rolante

 

Segue as pessoas até ocultar-se novamente em suas camadas de ferro e degraus semoventes, tendo o cuidado do eterno retorno, onde se dá nova perseguição sem que se tire o pé do chão. Sua leveza é à custa de desníveis do peso e da fuga de uma labareda de metal ou numa corrida em que degraus viram planícies acessíveis aos intestinos do piso. Quando volta às pessoas, sua vigilância é a mesma e o peso que carrega nas costas é uma eficiente indiferença de lagarta afônica.

 

* * *

A enganadora simplicidade de Kafka. Devo começar a ler “O castelo” nesses dias, e guardo uma imensa expectativa do livro, um romance, olha lá, inacabado. Ainda assim, uma das mais importantes obras da moderna literatura. Terminando de ler Yasunari Kawabata, o sublime “A casa das belas adormecidas”. E através de um filme, vi o quanto pode ser divertido criar um clube de leitura. Das coisas mais agradáveis, estar com amigos e poder comentar os livros que lemos. E não ficar encapsulado, pois água corrente flui, água parada cria lodo.

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É inevitável que na minha navegação por mares virtuais eu tenha como parada obrigatória alguns portos de renomada assiduidade. São endereços do balacobaco de onde eu sempre recolho boas dicas, leitura provocativa e certo estímulo para eu mesmo teimar em administrar meu próprio blogue. Esses blogues tratam de duas grandes paixões na minha vida: literatura e cinema. Nada mais lógico que eu seja freguês, mesmo que às vezes não me venha nenhum comentário. Gosto e pronto, com ou sem.

 

Do amigo, poeta e jornalista Linaldo Guedes soube com prazer que o seu Zumbi escutando blues foi

Zumbi escutando blues

Zumbis escutando blues

indicado como blog legal (www.vejablog.com.br) Também pudera: Linaldo traz para o seu blogue a mesma qualidade de texto e a disciplina que todo bom jornalista pega para si. Além do mais, o seu baú é vário, tem um pouco de tudo: poesia, informes literários, artigos, indicações, reflexões pessoais. É um pouco como um observatório do que acontece na cultura, daqui e lá fora. Sua alma de curioso seleciona, pondera, arrisca. Para quem quiser conferir: http://linaldoguedes.blog.uol.com.br

 

 

 

Renato Félix é Minha vida de cinéfiloteimoso. E dos bons. Cinema é seu negócio arriscado, seu falcão maltês. Sua vida de cinéfilo não se resume apenas a filmes, o que torna o seu blogue uma caixa de surpresas. Os assuntos versam sobre cultura pop, HQs, mundo virtual, comportamento e humor. É telescópio amplo, mira nas estrelas (do céu e do cinema), desce aos infernos, mas mantém o equilíbrio. Merece constante visita. Para quem quiser arriscar uma passadinha, http://minhavidadecinefilo2.zip.net

 

Todo poeta é o que deve ser: um ser de imprevisibilidade. Pegar o seu “baú de espantos” e largar no chão da realidade seus objetos pontiagudos, seus brinquedos pensantes. Não importa se o formato, a língua original, seja francês, inglês, português, javanês. Para o caso da língua traída, uma boa tradução poderá resolver o problema.

O imprevisível de que falo é Jacques Prévert, poeta francês do cotidiano, domador dos temas simples, de sua fauna de bichos , de suas cenas surreais.

Lançado pela Cosac e Naif, Dia de Folga tem tradução do poeta Carlito Azevedo, ilustrações de Wim Hofman e dezesseis poemas que aliam espontaneidade com irreverência. Algumas peças são conhecidas do público prevertiano, como o tocante Para fazer o retrato de um pássaro:

 

(…) fazer depois o retrato da árvore

reservando o galho mais belo de todos

para o pássaro

pintar ainda a folhagem verde e o frescor do vento

a poeira do sol (…)

 

Prévert é instigante. Ele arca com suas crueldades do mínimo cotidiano. Seus poemas agradam porque soam como a carta branca para a artimanha longe dos adultos. E sua ironia soa como uma gargalhada, uma peça que prega no óbvio. Como no poema que conta a história do gato que comeu o pássaro pela metade, deixando uma menininha inconsolável pela crueldade. Tudo uma preparação para ouvirmos a voz lírica do gato dizer, no verso final: “Nunca devemos deixar as coisas pela metade”.

Os poemas de Dia de Folga também são característicos de uma poesia que foge dos padrões esperados. Versos longos, quase sem rimas, histórias que parecem não primar pela linha lógica de certa poesia comportada e pedagógica. Muitos paralelismos, muitas repetições para causar um efeito nada tedioso. Como no poema O homem do farol adora os pássaros: a preocupação ecológica provoca, em vias indiretas, um desastre. O cuidadoso faroleiro decide apagar a luz do farol para evitar pássaros que tombam ofuscados, abatidos, mortos. E o resultado faz a ironia do poema crescer aos nossos olhos:

 

(…) E apaga tudo, pra valer

 

Ao longe, um navio naufraga

um navio que chegava das ilhas

um navio carregado de pássaros

milhares de pássaros das ilhas

milhares de pássaros afogados.

 

Ou seja, um livro que pelo apuro visual, consegue capturar a inteligência do leitor, de qualquer idade.

Trecho da entrevista do escritor Ismail Kadaré, feita pela Folha.

Kadaré é autor de Abril Despedaçado (adaptado para o cinema), Dossiê H, entre outros romances.

 

Folha – O sr. costuma dizer que sua formação literária caminha entre Macbeth e Dom Quixote. Como define essa mistura?

Ismail Kadaré – Trata-se sempre de caminhar entre o trágico e o grotesco. É um bom coquetel. A literatura precisa dos dois. Na vida é a mesma coisa, ainda que nem tudo que está na vida precise estar na literatura. A literatura é mais importante do que a vida.

 

Folha – Vários paralelos foram feitos comparando a sua literatura ao realismo mágico latino-americano. O sr. concorda com a aproximação?

Ismail Kadaré – Não sei, me parece um pouco ingênuo. Dante Alighieri fazia uma espécie de realismo mágico, Kafka e a mitologia grega também. Não sei por que essa denominação ganhou tanta força. O lado irrealista faz parte da literatura. Ela não pode nem mesmo existir sem essa dimensão transcendental, mágica, onírica, oculta.

 

Folha – Cabe aos grandes escritores juntar realidade e irrealidade?

Ismail Kadaré – Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas.

 

A tartaruga

  

 

tem um quê de pedra

que não se atira.

 

(eremita em sua caverna

sem idéia de Platão)

 

aciona sua casa

por controle remoto

– quando se pilha

em movimento

 

sempre em sua direção

corre o tempo.

Quis exportar as pequenas vidas do seu quintal para bem longe. Junto com os gatos roídos de sol e sarcasmo, junto com os vermes subterrâneos, o esmalte descascado da goiabeira. Isto tudo porque da janela, como um pescador que devolvesse os peixes, seus pensamentos iam se misturando sem critérios à falta de sentido que uma casa plantada no cotidiano emana, tirando lascas de um calendário que parece ancorar um ano que em nada é o ano que corre. Quis até certo ponto, até o momento em que os pensamentos submergiram como submarinos com remorso, ciente de que num canto distante da casa um apito anunciava o café a ferver – e a vida, impaciente, continuava.

Certas obras parecem pedir por certos diretores. Bom senso é isso (e nonsense, idem). Alice está bem  nas mãos de Tim Burton. Poderia estar também com Guillermo del Toro ou Alfonso Cuarón. É óbvio imaginar que o Chapeleiro Maluco só podia ser encarnado por Johnny Deep. (Lewis, sossegue..você está em boas mãos…)

 

France Presse

  A atriz Anne Hathaway foi confirmada no elenco de “Alice no País das Maravilhas”, versão cinematográfica do clássico, que será dirigida por Tim Burton.

 

O filme será produzido pelos estúdios Disney e terá também Johnny Depp e Helena Bonham Carter –atores sempre presentes nas obras de Burton.

 

A atriz que viverá o papel-título é a desconhecida Mia Wasikowska enquanto que Depp dará vida ao Chapeleiro Maluco e Hathaway interpretará a Rainha Branca, uma soberana benevolente que será despojada por sua irmã, a Rainha Vermelha, vivida por Bonham Carter.

Deus o livre, mas se você inventar de ser escritor, se afie. Não igual lâmina, mas nessa de dureza mesmo, admitindo desde já um pouco de cada coisa como tempero, mas nunca uma vida esgarçada demais. Leia tudo o que cair na mão e desconfie de tudo; sapeque uns tapas em uns clássicos – que são livros maneiros e cheios de gírias antigas e saque que tudo ali não é fruto do tempo que envernizou em respeito, mas permanência da qualidade literária mesmo, essa que você e sabe que é montanha e tem que escalar. Não ligue, não faça uso de comparativos entre quem deixa de fazer lição na escola da vida. Há escritor para tudo, para todo tipo de leitor. Encontre a sua voz ou as múltiplas vozes. Não caia nessa de que uma série de livros acumulados dentro de si é garantia de sua geléia real. Escreva já. Vá fuçando o romance guardado. Meta-se de crítico, de cinéfilo, de enólogo, vá encarando tudo. Se tem uma coisa bem desrespeitadamente vital é que a vida pode ser pirateada, tomada a pulso em todas as formas. Para ser um escritor primeiro entenda: passamos por imbecil, tolo, precário, morto, cadáver antecipado, ladrão, canalha, todos os cargos não-remunerados, bêbado, louco, puto da mesma vida. Escrever e ler sempre, mesmo sem livro, sem biblioteca, sem papel. Toda a liberdade está aí para ser usada. E não há prisão pior do que a falta do que fazer.

Meu cachorro azul não tinha nome. Nada que eu gosto tem nome. Tudo que é perigoso tem nome. O nome não é dado a alguém para diferenciá-lo. Senão nenhum nome seria igual. O nome é dado para você se igualar ou ser diferenciado dos outros. Ele voa. Ele anda em aeronaves. Ele é meu cachorro azul.

 

 

Recebo do escritor Rodrigo de Souza Leão o romance Todos os cachorros são azuis. Conheço Rodrigo de longa data e tenho dele também o livro de poemas Há flores na pele, editado pela Trema. Foi grata surpresa, portanto, vê-lo seguir na mesma linha de autores como Maura Lopes Cançado e Campos de Carvalho, autores que também lidam com o tema da loucura. É o relato muito irreverente, cáustico de um interno, um romance de pensamento (ou dos desvios dele), uma ótica surreal do cotidiano na clínica, com seus pacientes, suas injeções, com doses cavalares de referências pop, poética, enfim. Leitura que instiga, sobretudo pela intimidade que Rodrigo tem com o tema. A capa do livro, num tratamento sóbrio, respira bom senso e equilíbrio, o que para mim é uma ironia divertida para o título e o conteúdo sarcástico do miolo. Leitura de cabeceira e sem sedativos.

 

Começo

A manhã sem custo desperta
o poema, persiana aberta
com cuidado, que espreita

o indício de crime em que o dia
se apóia: pessoas que deambulam
entre os vestígios que chamamos

coisas e seres, pedaços de realidade
que se acumulam, podres ou intactos
como os tomates da feira.

A manhã, ainda a ser escrita,
futuro resto de uma segunda-feira.

André Ricardo Aguiar