Harold Bloom cunhou a expressão A angústia da influência. Em termos concisos, é o que acontece com qualquer poeta que entra na corrente literária do nosso tempo, a imensa sombra da tradição sobrevoando a tímida voz estreante. Mas a reflexão vai mais a fundo, é pano pra manga. Eu não sou bom em cunhar expressões. Geralmente, até simulo uma originalidade que não tenho. Quando muito, observo e aplico esta ou outra expressão para um determinado caso aqui nos cafundós literários. Já ouviu a expressão “Provincianismo da vaidade”? Acho que posso me regozijar de não estar no Google  na sua inteireza. O embuste pode nem existir, mas como sói acontecer nas melhores lides do jogo de palavras, uma coisa só existe se nomeada.

 O poeta municipal/discute com o poeta estadual/qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal/tira ouro do nariz. Drummond disse isso de forma tão cabal, que vale como um pórtico para as letras tupiniquins. Toda a nossa história existe essas duas situações: a discussão, e do outro lado, o ouro tirado do nariz. Ou melhor, o quanto essas discussões elevam-se a um céu estéril quando tem sempre alguém, na mais abjeta intimidade, tirando ouro puro. Glosas a parte, eu sou a favor de que entupam de gente as academias. E que inventem até outros nomes, inaugurem outras maneiras de institucionalizar o nosso ganha-pão abstrato: academia dos recém-publicados, academia dos inéditos em determinado gênero, academia disso e daquilo. Há muito disso por aqui: falo numa província hipotética, de geografia mais ou menos vaga e com leis mais ou menos gerais. Mas quem quiser assumir a carapuça, tem uma vaga. Tem sempre uma vaga que deixou um morto. Escolha a tradição para depois derrubá-la. O high-society literário adora polêmicas. Talento é mero detalhe.

 Ok, reducionismos a parte, pode-se escolher sob que ótica analisar o provincianismo da vaidade. Quanto menos vaidoso pode parecer um poeta, cuidado! Aí reside o perigo. Não existe modéstia e oportunismo num mesmo quarto isolado. Afora isso, pra quê serve também gastar cartuchos com um tema tão batido? Entre publicar e não publicar, existem tantos filtros e tantos atalhos e tantos entraves e tantas facilidades que até mereceria um rap de louvação por esse oba-oba simplificado que se tornou o éden do escritor de província. Volto a me corrigir: a província não fica num km da estrada, à esquerda de quem entra ou sai, não é uma cidade, uma região. Hoje é mais um estado de espírito. Há provincianos que nem desconfiam da instalação do vírus. E nem tentem confundir o “cantar a aldeia” com essa nódoa que salpica os despeitados. O escritor (o poeta, o romancista, o cronista…) que se preocupa em ser mais que os outros, em apostar em títulos, em elencar o ibope das academias, mereceria figurar num big brother cujas festas seriam lançamentos e cuja espiadinha seria para plagiar o seu par.

André Ricardo Aguiar