Que mal que fique úmido quando ainda é noite, mesmo que tarde? Você sabe que esse tipo de umidade não é proibido aqui em casa, desde que se esgueire rumo ao banheiro e evite o corredor. Sonhou com ela de novo, a prima que sempre passa o carnaval por aqui. E que traz o namorado, esse sim, um sujeito seco. Não lembra o nome dele, aliás, nunca entrou nessa dimensão de nomes, suas absorções são sempre visuais. Por exemplo, a prima não o encara, mas sempre dá um jeito de fazer pequenos comentários que o liguem aos fatos, enquanto D. Francisca concorda, “é, esse menino é sempre assim, vive isolado”. Isolado!

Que seja, ao menos uma categoria ela acerta: que ele precisa ficar retirado a um canto, à maneira de musgo, que cresce onde não deve, incomoda, mas cresce, há de crescer assim, no canto, e muito úmido, como agora no meio da noite, rasteiro por ter sonhado com a prima, empapado de suor e sêmen e se esgueirando, mais turvo e mais adolescente. Não sabe a idade da prima, mas deve beirar os trinta.

Na sua imaginação (muita vezes segue a mesma cartilha dos sons que pega no ar) você consegue ouvir o ressonar dos corpos, e vem assim, gratuitamente, a sensação de que uma moça ali, no meio da noite, porta entreaberta por causa do calor, também guarda as suas umidades e essa imagem chega a trazer de novo o efeito, o sexo que intumescido e livre é extensão do sonho em que se misturam prima, farfalhar de lençóis, alta temperatura, um mundo morno de reentrâncias. Passa discreto (agora se sente erva daninha) para o banheiro, terra de umidades, boceja, apalpa a maçaneta fria e toma um susto, pois que brusca ela se move e da navalha de luz que o banheiro cria no escuro, a prima sai de rosto lavado e camisolão e ainda diz, agora o encarando e com uma frase na boca: “Está sem sono, né?” E sai uma mulher rumo ao quarto. A imagem dessa mulher úmida e cheirando a pele dormida o despertou. Sim, respondeu por dentro. Está sem sono e é para sempre.

André Ricardo Aguiar