Meu cachorro azul não tinha nome. Nada que eu gosto tem nome. Tudo que é perigoso tem nome. O nome não é dado a alguém para diferenciá-lo. Senão nenhum nome seria igual. O nome é dado para você se igualar ou ser diferenciado dos outros. Ele voa. Ele anda em aeronaves. Ele é meu cachorro azul.

 

 

Recebo do escritor Rodrigo de Souza Leão o romance Todos os cachorros são azuis. Conheço Rodrigo de longa data e tenho dele também o livro de poemas Há flores na pele, editado pela Trema. Foi grata surpresa, portanto, vê-lo seguir na mesma linha de autores como Maura Lopes Cançado e Campos de Carvalho, autores que também lidam com o tema da loucura. É o relato muito irreverente, cáustico de um interno, um romance de pensamento (ou dos desvios dele), uma ótica surreal do cotidiano na clínica, com seus pacientes, suas injeções, com doses cavalares de referências pop, poética, enfim. Leitura que instiga, sobretudo pela intimidade que Rodrigo tem com o tema. A capa do livro, num tratamento sóbrio, respira bom senso e equilíbrio, o que para mim é uma ironia divertida para o título e o conteúdo sarcástico do miolo. Leitura de cabeceira e sem sedativos.