Deus o livre, mas se você inventar de ser escritor, se afie. Não igual lâmina, mas nessa de dureza mesmo, admitindo desde já um pouco de cada coisa como tempero, mas nunca uma vida esgarçada demais. Leia tudo o que cair na mão e desconfie de tudo; sapeque uns tapas em uns clássicos – que são livros maneiros e cheios de gírias antigas e saque que tudo ali não é fruto do tempo que envernizou em respeito, mas permanência da qualidade literária mesmo, essa que você e sabe que é montanha e tem que escalar. Não ligue, não faça uso de comparativos entre quem deixa de fazer lição na escola da vida. Há escritor para tudo, para todo tipo de leitor. Encontre a sua voz ou as múltiplas vozes. Não caia nessa de que uma série de livros acumulados dentro de si é garantia de sua geléia real. Escreva já. Vá fuçando o romance guardado. Meta-se de crítico, de cinéfilo, de enólogo, vá encarando tudo. Se tem uma coisa bem desrespeitadamente vital é que a vida pode ser pirateada, tomada a pulso em todas as formas. Para ser um escritor primeiro entenda: passamos por imbecil, tolo, precário, morto, cadáver antecipado, ladrão, canalha, todos os cargos não-remunerados, bêbado, louco, puto da mesma vida. Escrever e ler sempre, mesmo sem livro, sem biblioteca, sem papel. Toda a liberdade está aí para ser usada. E não há prisão pior do que a falta do que fazer.