A cama, um dispositivo

 

A cama é uma imensa planície, uma nuvem acolchoada onde os resquícios de geometria nem sequer sonha o que planeja: sofre a emboscada de quem a levite nos quatro pontos de sustentação de uma maneira tal que os degraus de espuma se misturam aos andaimes da lenta e sutil pequena morte, uma leve ressonância de trem em repouso, atalho forjando os arbustos, recorte de algodão e nuvens, uma ou outra avalanche ou marolas de pano, algodão e linho. Condado em que se entrelaçam desejo e forma, em que outro código é uma superfície acima vigiada pela matéria de que não somos feitos. A cama redime o tempo tenso em que temos de intervalo entre acordar e adormecer; por ela a musculatura do sangue seria eternamente seu cobertor.

 

A escada rolante

 

Segue as pessoas até ocultar-se novamente em suas camadas de ferro e degraus semoventes, tendo o cuidado do eterno retorno, onde se dá nova perseguição sem que se tire o pé do chão. Sua leveza é à custa de desníveis do peso e da fuga de uma labareda de metal ou numa corrida em que degraus viram planícies acessíveis aos intestinos do piso. Quando volta às pessoas, sua vigilância é a mesma e o peso que carrega nas costas é uma eficiente indiferença de lagarta afônica.

 

* * *

A enganadora simplicidade de Kafka. Devo começar a ler “O castelo” nesses dias, e guardo uma imensa expectativa do livro, um romance, olha lá, inacabado. Ainda assim, uma das mais importantes obras da moderna literatura. Terminando de ler Yasunari Kawabata, o sublime “A casa das belas adormecidas”. E através de um filme, vi o quanto pode ser divertido criar um clube de leitura. Das coisas mais agradáveis, estar com amigos e poder comentar os livros que lemos. E não ficar encapsulado, pois água corrente flui, água parada cria lodo.