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Nunca na minha vida tive problemas com seres imaginários. Mesmo porque, delatei-os todos ao meu psicanalista.

Até descobrir que ele era produto, também, de minha imaginação. O que me irrita é o fato, que considero uma traição, de que ele diz o contrário. De que eu sou o fruto da imaginação dele. Ledo engano, minha cara abstração. O consultório, a rua, o bairro sequer existem. Eu mesmo fui à região e comprovei. Vi uma funerária azul, uma praça e um ponto de ônibus. E nunca ouviram falar em clínica ou consultório por ali.

Volto agora soberbo ao lugar de onde eu vim. Mas assalta-me uma dúvida: de onde eu vim?

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folhaGostar de ler poesia: É necessário que você adquira o hábito de ler poemas. Cercar-se de bons autores, discutir com seus amigos, ler em voz alta, tudo isso prepara a sua herança cultural.

 

Ser versátil e curioso: Não existe regra para temas poéticos. Tudo o que é o nosso mundo rende um poema. Não existe inspiração apenas para temas distantes e abstratos. Até um cisco no olho pode render um poema.

 

Conhecer as regras é fundamental: entender dos processos e técnicas, mesmo que você não as use, abre um leque maior de possibilidades. Livros sobre teoria, os mais básicos, não são chatos. E oferecem exemplos maravilhosos.

 

Use a imaginação: poema é uma janela para as imagens. Tente visualizar tudo o que dirá num poema. Não estranhe se as imagens parecem dizer algo além da lógica. Poesia não é uma aula didática, não precisa explicar nada. Você precisa apenas mostrar o novo e ver beleza nisso.

 

Leia o dicionário: é um amigo para a vida toda e com uma vantagem extra, ele gosta de ser usado. Quanto mais palavras você acrescentar no seu vocabulário, melhor dirá uma imagem, uma idéia. Poesia é feita de palavras, lembre-se disso.

 

Veja e observe outras formas de arte: vá a uma exposição, veja um bom filme, leia quadrinhos. A arte é combinável e tudo está interligado. Preparar seu espírito para uma visão artística é como exercitar todo dia os músculos do seu corpo. Você jamais perderá a disposição.

 

Aceite o olhar do outro: Não se tranque numa concha, achando que fez uma obra-prima e que só a sua opinião importa. Poesia não é expressão com a finalidade de apenas mostrar o que está sentindo. Poesia é linguagem elevada a potência máxima e como tal, depende de recursos expressivos. Aceite críticas, inclusive as suas.

 

Rabisque e revise: poema é sujeito a versões e revisões. Uma idéia nunca fica pronta de vez. Faça esboços, anote tudo, corte, edite. Poesia é como montar um quebra-cabeça.

 

Tudo tem mais de um ângulo – Não caia na tentação em dizer o óbvio. Não dê nada mastigadinho para o leitor. Não suborne sua inteligência. Dizer de uma forma diferente algo que está dentro de você é 100% mais eficiente do que cair em lugar comum. Não crie preconceitos em poesia. Diga e ouse o novo.

 

Poesia também é humorNem pompa demais, nem bagunça ao extremo. A linguagem pede para desapertar o cinto. Não seja nobre demais. Você não vai discursar, vai cantar a beleza da linguagem. E com esta lição, seja breve, seja enxuto.

 

(Texto de minha autoria apresentado em palestra no Senac-PB em evento realizado para alunos)

kafka

Passou longos períodos em dormências, roçar de caibros, sustos rápidos com a luz. Seu estado de barata, sua estranheza quando se descobria pelos rodapés, seu manejo inocente, despreparado: as antenas tricotavam apenas o instinto de viver. Em algum ponto estava o asco, apenas como redoma, sem se dar na vista. Caminhou longa dinastia da cozinha para as frestas do banheiro. Um dia, quem sabe no apocalipse, chegaria ao quarto. Desinfetaria-se da sua vida ortóptera e onívora, andaria em patinhas rumo a um mundo de formas duvidosas, corroborando sua alucinação de inseto. E subiria entre panos, se alojaria no morno do quarto, deixaria o suor noturno da noite como crisálida – e pesado, remexendo com desconforto esses braços lassos, as pernas em forma de K, a cabeça a tomar rajadas de luz pela janela, sons decodificados, família coagulada numa distante sala de jantar… Quem sabe numa manhã não acordaria como o caixeiro viajante Gregor Samsa?

André Ricardo Aguiar, fragmentos

Umas das mais gratas surpresas da TV, o CQC – programa da Band – me apresentou uma turma muito talentosa, capitaneada pelo apresentador e blogueiro Marcelo Tas. Não perco um programa. Mas os integrantes, entre eles, Rafinha Bastos e Marcos Luque, são cobras criadas das  comédias Stand up, onde o que vale é a verve do sujeito em conversar ou contar fatos engraçados e piadas. O mais famoso, a meu ver, é Jerry Seinfeld, protagonista da mais famosa sitcom: Seinfeld, que reinou absoluta na década passada. Enfim, para não alongar o papo, o meu amigo Renato Félix indicou trecho de um espetáculo chamado Improvável. Rafinha propõe, no palco, uma série de brincadeiras onde o que vale é a improvisação e o raciocínio rápido. E sem mais delongas, é isso que indico e apresento no link. Divirtam-se.

Memorando

            A favor de Benedetti.

 

 

Agendo os desvios. Tropeço os acertos.

Dobro o mapa até que o cansaço faça vinco.

A rua dobra-se de dor numa esquina.

 

Não faço vento com os segredos.

Não perdôo as nuvens que se fixam.

Tenho mais de um deus, caso me falte.

 

Anoto os recados que a carne irradia.

Não peço informações, não procuro a saída,

não creio que haja memória suficiente.

 

O amor se envenena de seus antídotos.

Registro isso e as borboletas mais velhas

caem do calendário.

 

Não se ama também com a ausência?

 

 

André Ricardo Aguiar

 

Acordou com a sensação incômoda de estar sobrando no apartamento. Os músculos doíam, respirava com dificuldade. Abriu lentamente os olhos, fez um gesto de levar a mão ao rosto, mas o braço nem sequer se mexeu: estava entalado no corredor, os dedos roçando a minúscula porta do seu quarto. Notou que o mal-estar era causado pela posição (de cócoras) e por se encontrar totalmente envolto pelas paredes, teto e chão da sala, as costas voltadas para a varanda do 8º andar.

 

Qualquer movimento mínimo, ir para frente, recuar, encolher os braços, uma tentativa que se anulava com barulho de móveis esmagados. O apartamento estava vazio? Onde se enfiara a mulher? E a governanta? Estariam do mesmo tamanho? Veio um arrepio de pânico na nuca. Lembrou apenas que tinha dormido no sofá – esmagado pelo dedão – com a tv de plasma ligada. Ali estava a tv, parecendo um desses brinquedos japoneses de ávidos miniaturistas. Quando tentou tocar com o dedo mindinho, um barulho de cream-craker: a tela em cacarecos.

 

Sentiu todas as suas funções vitais, a respiração pausada, o coração acelerado. Começava a duvidar se aquilo ali era um apartamento, se não era uma brincadeira de amigos, uma maquete tecnológica. Bastaria arquear os ombros e a tampa sairia dos encaixes e ele apareceria no meio de rostos conhecidos ou talvez num show de mágica, sabe-se lá. Mas constatou, assustado, que o teto ruíra um pouco acima de sua têmpora. E, susto, a outra mão enfiada até o fundo da cozinha, sentia a vibração inorgânica de uma máquina de lavar.

 

Alias, bastava respirar um pouco mais forte: o deslocamento de ar já derrubou alguns quadros na parede. Ele não teve dúvidas. Estava numa reprodução exata do seu apartamento, um brinquedo de última geração com capacidade para simular o mais extenso aparato de uma realidade. E já estava se cansando da brincadeira e prestes a tomar uma atitude mais drástica (suas costas doíam mais e mais) quando a porta da frente fez um barulho e a maçaneta começou a girar.

 

Agora sim, ele veria mais uma função, talvez movida à pilha.

 

Em vez disso entrou um dedo: fez uma pequena inspeção às cegas, encontrou uma série de botões e foi desligando pouco a pouco a luz matinal, a corrente de ar, as vibrações do apartamento, o sistema de travas, o alarme, além da dor nas costas, a sensação de claustrofobia e – último impulso do pânico – sua consciência.

 

 

life1

O espólio fotográfico da revista Life está agora disponível no Google. São 10 milhões de imagens e fotos históricas cobrindo quase três séculos. Imagens que vão de 1750 até os dias atuais. Muitas imagens não são conhecidas, dizem que apenas 3% delas foram divulgadas em escala maior. Pode-se fazer a pesquisa por assunto, por década (ou simplesmente aleatoriamente). Aliás, a lendária revista, que saiu de circulação em 2000, está de volta.  Reaparece agora como semanário.

 

Informativa e divertida, superficial e séria, seu nome atraiu durante décadas os maiores fotógrafos, cujas fotos marcaram sua época: o desembarque na Normandia visto de perto por Robert Capa, Marilyn Monroe imortalizada por Milton Greene, as favelas do Rio por Gordon Parks, as temporadas de caça com Ernest Hemingway e Gary Cooper juntos, os Beatles na piscina tentando não molhar seu famoso corte de cabelo tipo cuia, o assassinato de John Kennedy, a vida dos viciados em drogas nos anos 60 ou de imigrantes nos anos 30. (France Presse, em Nova York)

bestiario

Que Bicho-papão é um monstro, todos sabem. O que pouca gente sabe é que ele tem família e que o sustento e a sobrevivência mesmo são pelo susto. Saber dar sustos é como uma profissão. É um conhecimento de pai para filho. Não se sabe exatamente onde moram os bichos-papões, mas aconselho a não procurar saber muito. Até porque eles não param em casa. Vivem no e pelo trabalho e tentam criar os filhos dessa maneira. Assustando criança (às vezes, até marmanjo) para sustentar a família. Susto, aliás, é como se fosse o ganha-pão do bicho-papão. É salário de monstro. Daí, susto e sustento serem palavras parecidas. Assim como papão e pão.

 

(Apontamentos para um inédito infantil)

***

Joguinho com um certo nível de dificuldade. Bobinho para uns. Mas o visual enxutinho, e um senso de quebra-cabeça e coordenação espacial não fazem mal a ninguém. Bom para passar o tempo. Bobeira, quis dizer.

 

doghouse

 

O trauma
(miniconto)


Ah, foi feio sim. O acidente? O corsa ficou por baixo do caminhão. Uma voz pastosa saiu das ferragens. Não se brinca com ferro fundindo a gente. Mas foi milagre: viu Deus, houve o big bang e fez-se o sangue. Embrulhado em ferro, mas lúcido. Tentou ser forte com os outros, se os outros houvesse. Então se calou, a espera de que serras e alavancas o tirassem dali, intactos, ele e o trauma. Deus nenhum.

* * *

De uma matéria na revista Época, 80 blogs que você não pode perder, pinçei estes adoráveis bichinhos. Momento nojentinho do meu blog.

Oficinas

 

Tudo é indício. À carne, à flor,

aos canteiros cheios de insetos e luz.

Os dons infernais gozam seus infartos.

Palavras nascem de mínimas ampulhetas.

Anjos renovam suas breves trilhas

Ou dardejam dicas em ouvidos

para quem queira, bolso alado,

guardar os acontecimentos

que Drummond não aconselhou.

  

Ficar comovido, porque haverá caixões

de plantão, de ofício: tudo é cifra

para os que queiram o que não queiram,

alimentar a chama fria, o risco da cicatriz,

paisagens marinhas agora áridas.

Todo poeta será enforcado com a sua

chance – não existe o dom, desculpem.

Existe o escárnio do mistério.

 

E os vulcões em risco de extinção.

  

 

André Ricardo Aguiar