kafka

Passou longos períodos em dormências, roçar de caibros, sustos rápidos com a luz. Seu estado de barata, sua estranheza quando se descobria pelos rodapés, seu manejo inocente, despreparado: as antenas tricotavam apenas o instinto de viver. Em algum ponto estava o asco, apenas como redoma, sem se dar na vista. Caminhou longa dinastia da cozinha para as frestas do banheiro. Um dia, quem sabe no apocalipse, chegaria ao quarto. Desinfetaria-se da sua vida ortóptera e onívora, andaria em patinhas rumo a um mundo de formas duvidosas, corroborando sua alucinação de inseto. E subiria entre panos, se alojaria no morno do quarto, deixaria o suor noturno da noite como crisálida – e pesado, remexendo com desconforto esses braços lassos, as pernas em forma de K, a cabeça a tomar rajadas de luz pela janela, sons decodificados, família coagulada numa distante sala de jantar… Quem sabe numa manhã não acordaria como o caixeiro viajante Gregor Samsa?

André Ricardo Aguiar, fragmentos