Todo poeta é o que deve ser: um ser de imprevisibilidade. Pegar o seu “baú de espantos” e largar no chão da realidade seus objetos pontiagudos, seus brinquedos pensantes. Não importa se o formato, a língua original, seja francês, inglês, português, javanês. Para o caso da língua traída, uma boa tradução poderá resolver o problema.

O imprevisível de que falo é Jacques Prévert, poeta francês do cotidiano, domador dos temas simples, de sua fauna de bichos , de suas cenas surreais.

Lançado pela Cosac e Naif, Dia de Folga tem tradução do poeta Carlito Azevedo, ilustrações de Wim Hofman e dezesseis poemas que aliam espontaneidade com irreverência. Algumas peças são conhecidas do público prevertiano, como o tocante Para fazer o retrato de um pássaro:

 

(…) fazer depois o retrato da árvore

reservando o galho mais belo de todos

para o pássaro

pintar ainda a folhagem verde e o frescor do vento

a poeira do sol (…)

 

Prévert é instigante. Ele arca com suas crueldades do mínimo cotidiano. Seus poemas agradam porque soam como a carta branca para a artimanha longe dos adultos. E sua ironia soa como uma gargalhada, uma peça que prega no óbvio. Como no poema que conta a história do gato que comeu o pássaro pela metade, deixando uma menininha inconsolável pela crueldade. Tudo uma preparação para ouvirmos a voz lírica do gato dizer, no verso final: “Nunca devemos deixar as coisas pela metade”.

Os poemas de Dia de Folga também são característicos de uma poesia que foge dos padrões esperados. Versos longos, quase sem rimas, histórias que parecem não primar pela linha lógica de certa poesia comportada e pedagógica. Muitos paralelismos, muitas repetições para causar um efeito nada tedioso. Como no poema O homem do farol adora os pássaros: a preocupação ecológica provoca, em vias indiretas, um desastre. O cuidadoso faroleiro decide apagar a luz do farol para evitar pássaros que tombam ofuscados, abatidos, mortos. E o resultado faz a ironia do poema crescer aos nossos olhos:

 

(…) E apaga tudo, pra valer

 

Ao longe, um navio naufraga

um navio que chegava das ilhas

um navio carregado de pássaros

milhares de pássaros das ilhas

milhares de pássaros afogados.

 

Ou seja, um livro que pelo apuro visual, consegue capturar a inteligência do leitor, de qualquer idade.