Nunca fui fã de registros em diário. Admiro essa literatura e esses escritores classificados como mnemônicos: talvez do hábito de compor (como uma ginástica) sempre e com mais eficiência a fluida matéria da memória torne a coisa mais ou menos controlada e possível. No meu caso, acho um saco ter que dizer, em vez de uma das façanhas compatíveis a de Hércules, a jornada banal de uma manhã tentando consertar o ralo da pia, o passeio matinal com a tartaruga ou a descida aos infernos às gavetas mofadas do meu quarto. Não que eu não ache minha vida interessante. Talvez seja meu hábito gravar um diário hipotético na cabeça e depois passar a limpo na forma de poemas, contos, crônicas e cartas. Porque a contrapartida seria um diário da “vida que eu queria que fosse”. Seria um realismo mágico de ressonância cotidiana. Seria Gabriel García com Kafka. Pernalonga com Dick Tracy. Algo do tipo:

 

Quarta-feira, 6.15

Alguma coisa no almoço traiu meu metabolismo, tornando-me tão leve que tive dificuldades de desgrudar do telhado. Sorte que minha família tinha viajado.

 

Segunda-feira, 9.40

Compras no mercado de Bombaim e logo em seguida, passeio no Hyde Park, em Londres. A bateria do teletransportador 5.0 Beta estava no finzinho, tive que voltar em átomos pra casa.

 

Domingo, 11.00

Hoje acordei transformado num imenso crocodilo e a cauda destruiu a base do criado-mudo. Terei problemas de locomoção nesta manhã. Cancelo o cinema ou espero passar a metamorfose?