Está próximo o Natal, uma época em que reminiscências se misturam com tomadas de posição. Além de algumas certezas. Época de presentes? Ótimo ganhar presentes. Eu que sou pai sei bem o que é isso. A cada época, cada degrau,  vejo minha filha e constato acima de tudo cumplicidade. Fiz o texto que segue alguns anos atrás. É uma forma de dizer o quanto a amo, nesse rara e fiel relação que perdura, que melhora com o tempo.

 

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Uma vez pensei na infância como um vaso de gerânios, um vaso esteticamente posto numa janela com paisagem ao fundo. Não se sabe exatamente o que é a infância no momento em que vivemos a tal. Assim o efeito da natureza dos gerânios: por si só eles espantam, causam atenção. Imaginar a paisagem com eles, duplo efeito, dupla carpintaria do olhar. Lembro o que era a minha infância de menino e continuo tendo a chance de ser o mesmo menino por dentro, um pouco mais envelhecido com os mesmos brinquedos. E pronto para ser confidente de minha filha.

Aliás, uma menina em que me pego no espanto, como se eu a flagrasse no bico de pena, tentando entender seus contornos psicológicos, sua personalidade (um gerânio saindo lentamente). Uma menina que repete outros rituais da descoberta. Brinca com as palavras no lugar do dominó ou do baralho.

Ainda não é a adolescente, mas posso divisar a linha desse horizonte de conflitos. Posso demarcar noites de conversa: a substituição das histórias com finais felizes pela aceitação da realidade com finais intercambiáveis. Finais abertos. Com um olhar de espanto, um olhar clariceano, me pego desenhando suas camadas, seus olhares de reconhecimento do terreno da vida. Menina irrequieta, filha do menino que pára e pensa o que é ser pai. Bem sei o que é isso: minha inquietude não me fecha no compartimento de minha geração. Antes, me anima a tocar os extremos.

Minha filha é um vaso de gerânios, é um toque para a linguagem. Não há nenhuma urgência nela. Ela cresce acima do tempo com a propriedade dessas folhas que sustentam uma paisagem, independente de qualquer estação. De onde ela retira suas frases, eu não sei. Imagino um baú de frases novinhas, a espera da cobertura dos primeiros significados. Para ela, a palavra ciúme é um brinquedo em que ainda não soube o botão para acionar. Ou desilusão, ou saudade, que ainda vão ganhar novos ângulos. Os filhos estão voltados para as próximas horas. A antiguidade para eles é uma idéia nova, quase futura.

A filha que tenho não sabe da minha infância, a não ser que eu me disponha a ser a maturidade dela. De puxar para um canto do sofá e falar do que mudou da minha para a sua infância. Sobretudo porque a infância de uma menina tem outras nuanças. Outros silêncios, outras as maneiras de preencher o dia, outro o calendário, outros os medos. Quero entender minha filha de modo simples, mas ela se adianta e me entende com uma fórmula mágica. Quem conta as histórias? Ela. Quem me dá notícias do mundo pequenino? Ela. Sempre estou a par da cartilha das coisas claras. A lição do presente é o futuro dormindo no quarto ao lado. A mão do tempo é a duplicação da minha mão, que acaricia seu rosto, o rosto de minha filha, pacientemente pintada em aquarela