Tabacaria II

(ou um jeito atrevido de responder a Álvaro de Campos)

 

Do que sou feito

não me dou ao direito de saber do que sou feito.

Não sei do que sou feito, é uma certeza.

Tenho outras certezas.

Tenho belas e irreconhecíveis certezas.

São cadafalsos, me tiram o chão.

Estão no sangue, no mistério das coisas,

que não são coisas, mas maneiras de pôr o mundo

segundo certas posições, diagramas, teimosias.

 

Minha realidade, minha circunstância, essa clara

disposição de ir morrendo, um pouco em cada gesto.

Em cada poema, em cada tropeço, uma rua percorrida por vez,

em cada bonde perdido, em cada senha esquecida,

em cada dia suspenso nas bolhas do relógio,

numa religião inventada, numa fazenda distante

em que desejasse ferir a terra que um me tragaria.

 

Sou feito da minha falta.

Onde decidir que permanência? Mesmo à janela de uma aldeia

que não é minha, quando ouço pela primeira vez balidos

de ovelhas, esquecido do meu país de origem,

o que em mim decide o que nunca tive? A vida inventada

pode ser a mesma e original vida que vivem por nós.

Vivem-me os números, o que pensam de mim, meus pecados,

terras em que tatuei a forma efêmera dos meus sapatos,

rabiscos em alguma agenda esquecida, os livros que li,

tudo isso numa rua de sonho ou lembrança ou pó.

 

Não preciso provar que estou vivo. Também os fantasmas

somem ou aparecem mil e uma vezes ao dia e nem dão por isso.

Mesmo em excesso sou menos vivo do que aparento e nada

me assombra mais, nada é mais patético do que estar assombrado

em pleno sol, esse manto que nada mais é do que um cobertor

cansado sobre o ciclo da vida.

 

À parte tudo isso, tomo o meu café, de gole em gole

e vejo pequenos sinais que não me sabem a códigos,

nem me apetece colar teorias sobre a multidão e os rostos

e que histórias banais ou extraordinárias podem sair dali.

 

Resta-me deixar em versos

(sombra de outros versos e bem melhores)

o que não fiz, o que nunca farei,

– os materiais da vida não aceitam pactos

e suas tramas parecem existir tanto quanto

a Biblioteca de Alexandria.

 

E ainda acredito, sim, que há metafísica bastante nos chocolates.