green_doorNa casa do romancista a porta da frente atraía histórias. Na verdade, personagens inconvenientes que, por algum motivo secreto, queriam saber mais sobre o sujeito que inventava vidas. Eram tolos. Respectivamente, um carteiro, um mendigo, a moça da avon. O romancista sentia no ar uma vibração de míssil, um risco no radar, um deja-vu. Chegava à porta e abria de par em par. E bastava olhar para o visitante, sentia uma enorme dor de barriga (era essa a reação ao querer escrever) e ia com maços de papéis para o banheiro. Os visitantes o achavam louco e saiam irritados.

Houve um tempo que se sentiu bloqueado. A mulher o tinha abandonado e os filhos só ligavam para pedir dinheiro através de uma conta. Desejava a vizinha, tinha uma foto de um flagrante no quintal, pernas descobertas, só não sabia que estava morta há alguns anos. Tinha rendido um conto, infelizmente, recusado por uma revista. Restava-lhe o recurso da  porta. Mas as pessoas não mais o visitavam. O carteiro pulava a casa. O mendigo arrumara um emprego. A moça da avon fora assassinada. Agora abria a porta de hora em hora. Até de madrugada. Não encontrava nada. Nem pessoas, nem eventos. Não chovia, nem acontecia terremoto, nem lufadas de vento.

Ele acreditou piamente que não ia escrever mais nada. Que a vida fronteiriça entre o que acontecia lá fora e na sua casa negava informação e lirismo. Decidiu vender a casa, fechar tudo, ir para o Caribe. Como não tinha nenhum objeto de valor, a não ser sua vida, que era móvel, deixou a porta levemente entreaberta. Como uma página em branco.