Comecei a me achar. Não preciso ir muito além do que existe, onde existo. A voz da professora é tônica, pós-tônica, pré-tônica, fala as palavras com todas as letras.

– Venha ao quadro-negro!

Evidente e correto: mas hesito. Aliás, nem gosto tanto assim. O colégio já é perto de minha casa, é manhã, tempo e espaço não são inimigos. A professora ganhou um rosto e um corpo e tem um ar mais maternal. Ensina tudo. Inclusive boas maneiras. Se o menino ao lado cutuca o nariz, disfarça bem.

– Regra de três simples: uma carroça percorre 10 km em duas horas, em quantas horas…

O desejo que conhecer a resposta das coisas. Com outra roupagem. Parece que um pirata, um vilão se esconde atrás de um problema de matemática. O mundo é pequeno e pode ser apreendido em quatro matérias, dois tipos de atividade (dever de classe, de casa), muita cópia, ditado, um recreio bobo.

Estou numa escola pública, afinal. De dimensões minúsculas. Pequena, com um pátio no centro e classes circundantes. Sua anatomia pedagógica é enfadonha. O terror de ter saído do útero está diluído. No meio do burburinho das vozes do recreio poderia até garimpar outros sons, quiçá os domésticos: minha mãe lavando roupa no tanque: o colégio mora na mesma rua de minha casa.

É o terceiro ano. Aos poucos, vou me soltando. Para o quê? A idéia que tenho de educação é vaga. Não questiono: Deus criou o céu e a terra, os dias e as semanas, as aulas e as folgas. Por uma lei estranha, as folgas, quando longas, são curtas; as aulas, quando curtas, infinitas.

Com o tempo, vou tomando gosto por História do Brasil. Já tem paladar. Livros com gravuras, fatos históricos, um passado imutável. Tiradentes impressiona pelo nome. Capitanias hereditárias não soa, nem ressoa. Ciências, assim no plural. Os planetas. Os estímulos continuam vagos. Estou me encontrando?

Ainda cometo, por acaso, desvios de disciplina.

Uma idéia de heroísmo tolo, quando se quer impressionar a menina mais bonita da classe. Se bem que é quase opressiva a timidez com que me vestia. A porta da classe era um portal entre meu mundo e aquela imensa e desconfortável sensação de tribunal que uma classe cheia causava. Respirar aliviado e ter ao alcance uma janela, ver a natureza.

Adoro a chuva. Passo a gostar do recreio.

Chuva e recreio. Brincamos na lama, chapinhantes. Eu e meus colegas. A brincadeira se estende além do tempo no beco do recreio, a professora não deixa por menos. “Pinto molhado não entra na sala de aula”. E acabou me mandando embora.

Daquele ano eu só lembro bem o céu nublado e a liberdade dada de improviso.