You are currently browsing the monthly archive for fevereiro 2009.

louise_brooksPara quem curte cinema, a rede oferece um sem par de lugares onde se encontram textos, artigos, matérias sobre a sétima (para alguns, a primeira) arte. Pesquei da Folha alguns escurinhos críticos:

O Greencine é  um ótimo ponto de partida para a blogosfera cinéfila em inglês, com links para praticamente todos os blogs e revistas eletrônicas que importam, como, por exemplo, a Rouge (www.rouge.com.au) e a Cinema Scope (www.cinema-scope.com).

No caso de ensaios, o que se encontra na rede varia do lixo ao luxo, e vale mais se tornar fiel de publicações como a Senses of Cinema, a Bright Lights (www.brightlightsfilm.com) ou a argentina El Amante (www.elamante.com) do que se dispersar na poligamia.

Por fim, o maior serviço de utilidade pública para quem quer aprofundar os conhecimentos vem sendo feito pelo grupo do Dicionários de Cinema (dicionariosdecinema.blogspot.com), com traduções de textos essenciais da grande crítica francesa.

 

Na cidade de Pândegas vivem os contadores de histórias. Vieram em caravanas e se instalaram de forma desordenada. Construíram cada parte da cidade de uma forma muito peculiar: no meio de conversas, contando histórias sobre a origem de cada recanto, como se o chão em que pisavam cobrisse uma cidade anterior. E assim, Pândegas, mesmo feita às pressas, ganhou a cor histórica, aceitando nos seus anais tanto reinados sanguinários quando períodos de paz.

Pândegas, séculos depois, passou a exportar histórias. Mesmo que cada habitante, do prefeito ao limpador de chaminés, sofressem do chamado bloqueio durante um tempo, chegava alguém com algum fato tão interessante que imediatamente a história ficava registrada na excelente memória dos pândegos. O comércio incluía não só contadores de histórias, mas revisores para que as histórias fossem impressas em rolos e pergaminhos, acomodadas no imenso galpão e posteriormente exportadas. Foram também contratados tradutores, adaptadores, roteiristas, críticos e organizadores de antologias. As histórias também serviam como moeda, e possuir um cadinho delas também servia para trocas, com o valor estabelecido segundo uma escala: sagas de família valiam como dobrões, anedotas serviam como troco ou gorjeta, e assim por diante.

Pândegas também ficou conhecida pelos seus piratas de terra firme, que atravessavam grandes distâncias e, disfarçados de mercadores ou meros turistas, recolhiam as histórias de outras cidades, dos portos e das docas, e com a carga guardada na memória (todo pândego tem uma memória avassaladora) faziam o percurso original e depositavam nos ouvidos dos escribas tudo o que foi recolhido.

O problema, conhecido apenas pelos mais temerosos da crise financeira, arruinando o comércio dessas histórias, é que os piratas não achavam exatamente cidades, mas ermos, despovoados, encostas íngremes que impediam de chegar a alguma civilização. Daí, cansados, montavam acampamento e ao redor de fogueiras, inventavam possíveis cidades com características próprias, jeito de viver, proliferação de pragas e, com muito debulhar, as histórias nascidas disso. Também não eram tão pródigos na memória, então desenvolveram uma linguagem de objetos: recolhiam na estrada ora galhos, pedras, flores, borboletas ressequidas e segundo uma disposição nos alforjes, construíam o enredo das lendas, a cor dos provérbios, a brasa do humor.

Pândegas era uma civilização terminal. Não se sabe se sofreu com o peso das histórias, mas por ter sido construída em terreno instável, dobrou-se sobre o seu epicentro e literalmente foi fechada como um livro, deixando como vestígio uma capa de poeira, escombros e cinzas.

Bato na palavra até que ela me dê a alma.

Mais ou menos isso que o querido Ronaldo Monte disse em depoimento ao Tome Prosa, Tome Poesia. Concordo. E acrescento: se todos os que mexem com a palavra entendessem isso e apresentassem um projeto mais acabado, mais coerente. Não é o que acontece. Acontece uma grande surra e as palavras quedam inermes, exangues. Fica a sensação de que a alma fugiu entre um sopapo e outro. Ronaldo, poeta, cronista, contista e romancista. Em todo projeto seu, a sensação de que soube domar a palavra. Bateu e não levou.

 

Chega de medidas. Planejamos, centímetro a mais ou a menos, quando uma felicidade ou tristeza ganha relevo. Tentamos colocar tudo no mundo das corporações (eu ia dizer comparações). Se o saldo não for positivo, segundo a felicidade ou a ambição da moda, então, pronto, o script é pôr a angústia num vaso para que se contemple: são flores que segundo o ângulo, podem cheirar levemente ou parecer tolas demais para compor uma delicadeza. Delicado e humano se solidarizam. Mas apenas quando se perdem.

 

 

Para os amantes de livros, a novidade pode ser boa. O Skoob é um site que literalmente permite que o usuário monte sua estante virtual (e compartilhe com outros amigos seus gostos, suas avaliações, seu desejo de ler outras obras). É uma tendência agora mais corriqueira, através do sistema que tornou popular sites de relacionamento: uma página de perfil, contatos, forma de interação. No caso do Skoob (livros em inglês, ao contrário), as obras são as estrelas. Depois do cadastro, o sistema de busca localiza autor, obra ou usuário. No detalhe do perfil, cada livro lido e incluído acrescenta páginas no paginômetro. Pode-se resenhar as obras, dar opiniões, sugerir. Nada mal.

Hoje é dia de mais uma edição do evento coordenado pelo poeta Antonio Mariano, o Tome Poesia, Tome Prosa. Ronaldo Monte, Renálide Carvalho e Ikaro Maxx são os convidados. Ronaldo é autor respeitado, participante do Clube do Conto, psicanalista e – digo com orgulho – meu amigo.  Renálide e Ikaro fazem parte da nova geração de poetas e foram agraciados pelo concurso Novos Escritos, realizado pela Funjope. Noite que espero que seja de lua e de claridade poética.

Local: Restaurante Sagarana, av cabo branco 3056 – hoje, 20:30h

Ode ao café

A xícara sobre

vive no por

do sol negro

e fumegante.

Lentamente

de um lago

germina

flor metálica

que colho

do pólen

dos dedos,

(às voltas

com as margens

de porcelana

chinesa)

que a gira

faz um tempo

coando em mim

uma espera

de gole

profundo

do café.

Lavatory love story”, de Konstantin Bronzit, ganhou o público pelo roteiro criativo e bem-humorado, que conta a história de uma mulher em busca do amor.

delicatessen2Fazemos um som de jazz simples e ao mesmo tempo refinado, em que o menos é mais. Por isso, atingimos grande abrangência de público, que vai dos 15 aos 70 anos, entre homens e mulheres. Até quem nunca curtiu jazz por achar complicado passou a ouvir canções do gênero a partir do Delicatessen”, é o que garante Ana Krüger, do grupo gaúcho Delicatessen.

 

E é uma mistura deliciosa. Olha só, basta pegar o melhor do jazz e colocar uma batida de bossa.  O primeiro cd, Jazz + Bossa, encantou lá fora. Sucesso no Japão, Itália, Portugal. Agora ouço o novo cd, My baby just cares for me, com releituras, muito suingue e arranjos na medida exata. A execução de cada faixa é algo próximo do irretocável.   

 

Para saber mais:

http://www.delicatessenjazz.com

antologiaE saiu a antologia do Clube do Conto. Um livrinho que, a despeito de acertos e falhas, tem uma qualidade simbólica. É o resultado, sim, de uma fogueira que reuniu contistas, amigos e histórias e que nenhuma vaidade tornou em cinzas. Recebemos pela Funjope que acompanhou mas ainda não conseguiu medir a natureza desse grupo. É um organismo anárquico que busca o prazer de partilhar histórias. É uma caravana mínima de gente muito talentosa, sobretudo para a fofoca criativa, o causo urbano, a lenda minimalista, o chiste de carteirinha, a bula e o bulício. Faz estardalhaço sem terremotos. Agora o grupo tem um livro, uma dezena de contos – embora esteja perto do milheiro impresso em folhas, catalogado por Dora Limeira. O Clube do Conto, vale dizer, começou no mais improvável dos lugares, o shopping, reunião para surdos e cegos do consumo em prol daquela coisa de alcova a que chamamos palavra, mas que comporta outros significados metafóricos: almofada, fogueira, alavanca, lâmina. Cresceu e tomou gosto pelo boca a boca e virou confraria de imediato, com gente passando a senha das histórias para outras gentes, e do riso fez-se mais riso, e houve galhofa, motivação, tema e sorteio. Houve também novas gentes, abre-te-sésamos, abracadabras, mil e um sábados. Passou por temas como casamento, vampiro, celular, mitos, bibliotecas, portas até os mais insuspeitados indícios de que aquilo não tinha fim. E não teve, como bem quis Borges e Suassuna. Deu no que deu. Deu no Globo, no Liceu, na cidade, na praça, de bar em bar. Sábado ficou sendo o dízimo do diz-que-me-diz, mesmo que fiéis e infiéis se alternassem entre o sumiço e o reencontro. E aí está para quem quiser comprovar. A praça não é só do povo, é do conto. E agora, é do livro também.

(Histórias de Sábado, Editora Liceu)

Bilhete a Bishop

 

 

 

Tudo soa como perda,

a mesa, esse poema,

uma cachaça,

um continente,

o alarido abstrato

dos quintais,

pétalas do calendário,

o amor

(esse outdoor silencioso)

runas e ruínas

o tempo cronometrado

do metrô,

as segundas exiladas,

os domingos

em ponto morto,

tudo soa e ressoa

melancolicamente

pequena luz

para insetos:

 

a perda,

maçã sabendo

a paraíso perdido.