Quando você fecha a janela de um livro, abre a janela de uma vida.

Da minha, Keiko Kai.

A primeira lembrança que tenho da minha vida é um fantasma; porque a infância não é mais do que o fantasma da nossa vida adulta: algo que já morreu, mas se nega a nos abandonar e, de repente, se materializa arrastando correntes no fundo de um corredor.

A primeira lembrança que tenho da minha infância – como se eu me visse de fora, do outro lado da janela aberta – é de mim mesmo com um livro.

No meu quarto, no quarto que também era o quarto do Baco,mas que acabou virando apenas o meu quarto. Lá, no lugar mais alto da casa. Lendo.

E guardo essa lembrança – a lembrança de mim mesmo lendo.- porque foi aí que percebi que aquilo era uma coisa que eu não queria esquecer, nunca, e foi então que senti o delicado mas evidente mecanismo da minha memória fazendo girar engrenagens menores que as de um relógio. Um artefato capaz de preservar aquele instante como uma escultura exibida numa das alas mais privilegiadas do museu da minha vida.

 

Jardins de Kensigton – Rodrigo Fresán (Conrad) Trad. Sérgio Molina