Ronaldo Monte, contista e membro do clube do conto, tem uma predileção: pinçar-me como personagem nas situações mais vexatórias. Eu, claro, me divirto. São vários contos cometidos ao sabor das circunstâncias. Já tentei vingar-me usando-o, o contista, como personagem. Só saiu-me um conto mal-ajambrado. Este, disponível aqui e no blog do Rona, merece crédito: tão distante e tão perto de mim.

ROUPA ÍNTIMA

Não se deve deixar roupas íntimas penduradas na maçaneta interna da porta do banheiro. É possível que elas sejam esquecidas lá por muito tempo e não se pode medir as consequências desse esquecimento.

André havia se mudado para aquele apartamento há menos de uma semana. Era a primeira noite de sexta-feira que passava na nova casa. Por isso, a primeira coisa que quis fazer quando chegou do trabalho foi tomar um longo banho. Depois ia bebericar um uísque e pensar com quem fazer a inauguração. Uma namorada ou um punhado de amigos mais chegados que não reparassem na desarrumação.

Entrou no banheiro e sorriu com o hábito de fechar a porta. Lembrou-se que Antônio Maria dizia que a única vantagem de morar só é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas a água já escorria morna. A porta aberta ficava para a próxima vez.

André ainda esfregava a cara com a toalha quando viu um sutiã pendurado na maçaneta da porta. Bem que podia ser de uma de suas namoradas, quis pensar, mas logo se lembrou que nenhuma delas ainda estivera ali. Só podia ser da antiga inquilina.

Por um súbito e inexplicável pudor, André não tocou no sutiã. Não era direito pegar numa coisa tão íntima de uma pessoa que não conhecia. A toalha já enrolada na cintura, sentou-se na bacia sanitária e ficou estudando a peça pacientemente. De aparência um pouco desgastada, parecia reservado ao uso doméstico ou em saídas rápidas sob uma camisa de meia. Os bojos eram de tamanho mediano, mas o elástico desgastado sugeria um excesso de volume a ser sustentado. Seios ligeiramente fartos, concluiu André. E imaginou a totalidade do busto que ali se ajustaria.

Concluída a construção da parte superior, passou a deduzir o restante do corpo que habitara o seu banheiro. Simetria entre busto e quadris era coisa de miss dos anos sessenta. André preferia ver as ancas um pouquinho mais estreitas que o perímetro superior, mas fartas o suficiente para delinear uma curva descendente em direção ao ventre, estando a dona lendo um livro deitada de lado, uma das mãos apoiando a cabeça.

A cabeça. Eis um enigma enorme para André. Um corpo assim exigia cabelos longos. Longos e negros. Mas a mulher não podia ficar assim, só cabelos. Precisava de um rosto com olhos para ler o livro. Teria óculos, como toda mulher que lê na cama. E uma boca com lábios carnudos para balbuciar uma frase aqui e ali. E precisava de mãos delicadas para segurar o livro e passar as páginas. Faltavam ainda coxas, pernas e pés para que a dona se mexesse a cada passagem mais excitante da leitura.

André se vestiu apressado e deixou o quarto sem fazer barulho para não atrapalhar a leitura da mulher. Foi para a sala, preparou seu uísque, mas não telefonou para ninguém. Bebericou a dose e ali mesmo, no sofá, caiu no sono.

Quando André acordou na manhã do sábado, a luz do quarto ainda estava acesa. Escutou virar uma página de livro. Viu que não tinha nada para o café a manhã. Calçou as sandálias, levantou-se sonolento e falou alto em direção ao quarto: vou ali na padaria comprar alguma coisa. Volto já.

Ronaldo Monte