You are currently browsing the monthly archive for abril 2009.

Literatura feita por mulheres e homens que se fingem de. Este é o mote do Escritoras Suicidas, site de literatura onde poemas e contos são produzidos segundo motes. Com edições temáticas, a editora Silvana Guimarães agita a cena eletrônica com provocação e bom gosto.

suicidas

Anúncios

Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal-iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.

márcia maia

(Conto surrupiado do site Mulheres Suicidas, em homenagem a uma amiga muito querida)

Eu gosto de títulos. Ontem mesmo estava com um, a folhear curiosamente no perímetro de uma livraria: A arte de recusar originais. Não vou citar o autor ainda. Fica para uma próxima. Eu gostaria de ter um escritório só de títulos. Estas cápsulas de sentido vendem horrores, quando bem produzidas. Olha aí o Campos de Carvalho. Não vendeu muito em vida, claro. Mas estava na frente de sua época. Como não se encantar com títulos assim (das obras dele)?: A lua vem da Ásia. A chuva imóvel. Vaca de nariz sutil. E essa maravilha que dispara em proparoxítonas: O púcaro búlgaro. Está bom, gastei um monte de títulos de um só autor. Chamo isso de preferência compulsiva, o que pode redundar, mas me deixa satisfeito. Aguardem. Ando remexendo minha gaveta. E o blog Verdura, soube, está atualizado, de uma amiga muito querida. Vão lá, que a preguiça pode virar utopia.

 

Os seios de minha amada

não impedem a luz do sol

 

são altares onde as andorinhas

brincam de existir

 

um pouco mais ao sul

(corte rápido e vermelho)

descobri um pomar-para-dedos

 

onde o pouso de barco

abranda uma língua de sede

 

onde os poros da carne

não me tomam por cego

mesmo sem os tatos

 

da luz.