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barretoO erro é mais fácil de notar que o acerto. Em alguns aspectos, acertar significa pôr algo tão em ordem que passa despercebido. Assim pode ser um texto bem escrito: sua fruição é conseqüência de um esforço em torná-lo límpido, puro, simples. Às vezes, uma vida também é desse jeito. Quem me mostrou isso foi Barreto. Ou Geraldo Maciel.

Sabia demonstrar isso no melhor escritório que criou: o das palavras. Não dava conselhos, mostrava-os com arte. Era delicado o meu amigo, mas de um padrão vigoroso, de quem aprendeu com a matéria da vida. E a vida entranhou-se em tudo nos afazeres do contista. Tudo era matéria para a vida e para a arte. Atentem para qualquer conto, pegue um ou outro livro. Está ali. No conto Sandro Moretti não cria rugas, ele escreve: Minha mãe achava que cada um tinha o seu destino. Eu não pensava assim. Agora sei que minha mãe tinha razão. A vida me ensinou que o meu, como de todo mundo, está traçado e que deslizo sobre ele como um trem nos trilhos.

Ainda não me dou conta de sua ausência. É outra das artes de Geraldo Maciel.  Tinha os pés exatos para entrar e sair de cena. Imitação do estilo: escrevia como a preparar o dia de  viver. Revisava-se. Traduzia-se. Gostava do começo-meio-e-fim.  Equipou-se tão bem desse esquema que viveu com plenitude, deixando uma mesa posta com exemplos, um ar de calma urgência e dignidade no ofício literário.  Uma criatura tão rara.

A vida que ando colecionando aqui, no meu bairro (assumo a posse sempre do lugar que quero estar) são pequenos flashes banais que não querem colar para formar algo de sentido. Não importa muito. Viver às vezes só pede a sensação de estar vivo – e tomar consciência disso sem imposições maiores do que falava o poeta português: o que em mim sente está pensando.

Então saio na hora do crepúsculo ou no vai-e-vem dos carros, ou mesmo na sensação de que a tarde morre por cima do formigueiro humano. Não, não é uma confissão enquadrada em obviedades. Eu cruzo uma pequena parte da cidade com uma identidade que ele, o bairro, conseguiu impor. Eu sou um pequeno grão nesse areial. Com a sensação de que pesa a sacola do supermercado e as sandálias que deixam, agora, meus pés respirarem.

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