barretoO erro é mais fácil de notar que o acerto. Em alguns aspectos, acertar significa pôr algo tão em ordem que passa despercebido. Assim pode ser um texto bem escrito: sua fruição é conseqüência de um esforço em torná-lo límpido, puro, simples. Às vezes, uma vida também é desse jeito. Quem me mostrou isso foi Barreto. Ou Geraldo Maciel.

Sabia demonstrar isso no melhor escritório que criou: o das palavras. Não dava conselhos, mostrava-os com arte. Era delicado o meu amigo, mas de um padrão vigoroso, de quem aprendeu com a matéria da vida. E a vida entranhou-se em tudo nos afazeres do contista. Tudo era matéria para a vida e para a arte. Atentem para qualquer conto, pegue um ou outro livro. Está ali. No conto Sandro Moretti não cria rugas, ele escreve: Minha mãe achava que cada um tinha o seu destino. Eu não pensava assim. Agora sei que minha mãe tinha razão. A vida me ensinou que o meu, como de todo mundo, está traçado e que deslizo sobre ele como um trem nos trilhos.

Ainda não me dou conta de sua ausência. É outra das artes de Geraldo Maciel.  Tinha os pés exatos para entrar e sair de cena. Imitação do estilo: escrevia como a preparar o dia de  viver. Revisava-se. Traduzia-se. Gostava do começo-meio-e-fim.  Equipou-se tão bem desse esquema que viveu com plenitude, deixando uma mesa posta com exemplos, um ar de calma urgência e dignidade no ofício literário.  Uma criatura tão rara.