You are currently browsing the category archive for the ‘Da gaveta’ category.

green_doorNa casa do romancista a porta da frente atraía histórias. Na verdade, personagens inconvenientes que, por algum motivo secreto, queriam saber mais sobre o sujeito que inventava vidas. Eram tolos. Respectivamente, um carteiro, um mendigo, a moça da avon. O romancista sentia no ar uma vibração de míssil, um risco no radar, um deja-vu. Chegava à porta e abria de par em par. E bastava olhar para o visitante, sentia uma enorme dor de barriga (era essa a reação ao querer escrever) e ia com maços de papéis para o banheiro. Os visitantes o achavam louco e saiam irritados.

Houve um tempo que se sentiu bloqueado. A mulher o tinha abandonado e os filhos só ligavam para pedir dinheiro através de uma conta. Desejava a vizinha, tinha uma foto de um flagrante no quintal, pernas descobertas, só não sabia que estava morta há alguns anos. Tinha rendido um conto, infelizmente, recusado por uma revista. Restava-lhe o recurso da  porta. Mas as pessoas não mais o visitavam. O carteiro pulava a casa. O mendigo arrumara um emprego. A moça da avon fora assassinada. Agora abria a porta de hora em hora. Até de madrugada. Não encontrava nada. Nem pessoas, nem eventos. Não chovia, nem acontecia terremoto, nem lufadas de vento.

Ele acreditou piamente que não ia escrever mais nada. Que a vida fronteiriça entre o que acontecia lá fora e na sua casa negava informação e lirismo. Decidiu vender a casa, fechar tudo, ir para o Caribe. Como não tinha nenhum objeto de valor, a não ser sua vida, que era móvel, deixou a porta levemente entreaberta. Como uma página em branco.

Anúncios

Tabacaria II

(ou um jeito atrevido de responder a Álvaro de Campos)

 

Do que sou feito

não me dou ao direito de saber do que sou feito.

Não sei do que sou feito, é uma certeza.

Tenho outras certezas.

Tenho belas e irreconhecíveis certezas.

São cadafalsos, me tiram o chão.

Estão no sangue, no mistério das coisas,

que não são coisas, mas maneiras de pôr o mundo

segundo certas posições, diagramas, teimosias.

 

Minha realidade, minha circunstância, essa clara

disposição de ir morrendo, um pouco em cada gesto.

Em cada poema, em cada tropeço, uma rua percorrida por vez,

em cada bonde perdido, em cada senha esquecida,

em cada dia suspenso nas bolhas do relógio,

numa religião inventada, numa fazenda distante

em que desejasse ferir a terra que um me tragaria.

 

Sou feito da minha falta.

Onde decidir que permanência? Mesmo à janela de uma aldeia

que não é minha, quando ouço pela primeira vez balidos

de ovelhas, esquecido do meu país de origem,

o que em mim decide o que nunca tive? A vida inventada

pode ser a mesma e original vida que vivem por nós.

Vivem-me os números, o que pensam de mim, meus pecados,

terras em que tatuei a forma efêmera dos meus sapatos,

rabiscos em alguma agenda esquecida, os livros que li,

tudo isso numa rua de sonho ou lembrança ou pó.

 

Não preciso provar que estou vivo. Também os fantasmas

somem ou aparecem mil e uma vezes ao dia e nem dão por isso.

Mesmo em excesso sou menos vivo do que aparento e nada

me assombra mais, nada é mais patético do que estar assombrado

em pleno sol, esse manto que nada mais é do que um cobertor

cansado sobre o ciclo da vida.

 

À parte tudo isso, tomo o meu café, de gole em gole

e vejo pequenos sinais que não me sabem a códigos,

nem me apetece colar teorias sobre a multidão e os rostos

e que histórias banais ou extraordinárias podem sair dali.

 

Resta-me deixar em versos

(sombra de outros versos e bem melhores)

o que não fiz, o que nunca farei,

– os materiais da vida não aceitam pactos

e suas tramas parecem existir tanto quanto

a Biblioteca de Alexandria.

 

E ainda acredito, sim, que há metafísica bastante nos chocolates.

Renato Alarcão in A cartomante

Renato Alarcão in A cartomante

A minissérie Capitu já terminou e ainda fico na dúvida se gosto ou detesto. Eu tenho essa mania, uma coisa no calor do momento me chama a atenção, e às vezes, me nubla – sobretudo em momentos em que tenho mil coisas para resolver e minha cabeça fica um tumulto. Depois, mais descansado, paro e penso. E leio matérias esclarecedoras que coloca um outro ângulo…por sinal, o ângulo que coincide com o que eu gostaria de ver. Acho que a coluna do Diogo Mainardi (veja no blog de Amanda K)tem suas sacadas sim. Os carvalhistas de plantão que me perdoem, mas ainda assim preferia ver a adaptação de Dom Casmurro com a pena da galhofa e da melancolia, um pouco menos over, menos circense. Até porque, como o amigo Linaldo Guedes citou, qual foi a última adaptação de fôlego que seguiu um bom e velho esquema começo-meio-fim? Tudo agora são pirotecnias, como se só valessem, na transposição do papel para a tela, unir obra e espetáculo visual, em detrimento até da alma narrativa da história. Gostei, confesso, de muitas cenas da minissérie – e os olhares de ressaca foram fiéis. Não tiro o capricho cenográfico nem as sacadas visuais de Luiz Fernando Carvalho. Mas Machado já é denso o suficiente, tem texto que competentemente levaria força dramática e humor em doses fartas numa adaptação fiel sem estar sob a lona do circo.

 

Sobre conto e roteiro

 

Segunda-feira, ontem, foi um dia interessante para mim. Fui convidado por Bertrand Lira para uma conversa com sua turma de Roteiro, lá no Decom-UFPB. Na pauta do encontro, para conversar sobre adaptação e também um comentário crítico sobre dois contos meus: A mulher inflável e Casa de bonecas. Eu sempre vejo com simpatia esses encontros para falar de literatura, e quem sabe, aprender um pouco mais outros olhares. E esse estímulo é minha melhor alavanca. Fica o bom registro de mais um momento que guardo com carinho.

metrovi

 

Naquela estação tem um metrô fixo. Proposta de uma pequena empresa para os sem destino. Para quem não sabe onde pousar, para os cansados das chegadas e partidas, para os excêntricos. Um metrô com o mesmo comprimento da estação. Cujas portas se abrem, onde os passageiros tomam os assentos e recebem, através de projeções, imagens corridas de paisagens, bairros felizes, subúrbios idílicos. O metrô tem motores que acionam a trepidação e uma voz que anuncia paragens. É só um pouquinho mais caro que o metrô convencional. Mas já é um grande passo que o metrô não avance um metro.

 

André Ricardo Aguiar

Você que não teve tempo, condições (leia-se saco) pra ler aqueles grandes clássicos da literatura que todo mundo discute com pose de intelectual (mas que ninguém leu também), agora vai poder participar das discussões e ainda dar pinta de entendido com as novas “Versões Condensadas dos Clássicos da Literatura“!

 

Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust.

Gallimard, 1617 páginas.

 

Resumo: Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486. vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1044, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (pág. 1433, vol. VII) onde estão todos muito velhinhos. E pronto.

 

Guerra e Paz, Leon Tolstoi.

Chartreuse,1200 páginas.

 

Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro.

 

Os Lusíadas, Luís de Camões.

Editora Lusitania, um monte de páginas.

 

Resumo: Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas.

 

Madame Bovary, Gustave Flaubert.

Pléiade, 778 páginas.

 

Resumo: Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre.

 

Romeu  e Julieta, William Shakespeare.

Oxford University Press, 437 páginas.

 

Resumo: Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada,uma briga danada, muita gente se machuca. Então um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era energético.

 

Hamlet, William Shakespeare.

Oxford University Press, mais de 300 páginas, pô!

 

Resumo: Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe, isso depois de falar com uma caveira e antes de morrer assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Ufa.

 

Édipo-Rei, Sófocles.

Várias edições, cada uma maior que a outra

 

Resumo: Maluco tira a maior onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta.

End:

 

Não há nada a fazer,

eu moro onde me perco.

São as mobílias que anotam

meus endereços mesquinhos:

a rua cada vez mais curta,

o arrabalde das folhas,

resquícios.

 

Não há muito o que guiar.

Habito sem direção

a treva que quase sufoca

tentando alcançar a lâmpada

dos cômodos da memória.

 

Mudar ou perder são continentes

idênticos, passagens

só de ida.

pisces1

Como poucos, cultivava a solidão. Quando, findo o trabalho na fábrica, rumava ao ponto de ônibus. Ou mesmo seguindo as anáguas da lua. Exausto, ancorava o dia e ligava a tv.

 

Uma noite encontrou o Pescador sentado na beira do sofá. Vara de pesca em punho, jogava a linha no fundo da sala e, intruso, esperava. Ficou sem saber o que dizer. Não conseguiria removê-lo do sofá. Com o passar dos dias, acabou aceitando a convivência. Mas evitava-o. Pôs a tv no quarto, em respeito ao silêncio do Pescador. E lia Hemingway na cozinha.

 

Era difícil suportar aquele código de espera, a economia de movimentos, o respirar matemático do sujeito. Além disso, aqui e acolá, surpreendia a linha costurada à sombra dos móveis, a tecer emboscadas. De uma feita, tomou do anzol sua meia de lã. Outro instante, feriu o tornozelo ao sair do banheiro. O Pescador apenas desenrolava ou enrolava o molinete, trepado no sofá, como se fosse um barco imóvel. Perscrutando os cômodos da casa.

 

Um dia o homem trouxe uns bolinhos de bacalhau.

Cuidando não se enredar na linha espalhada ali, foi desembrulhando a gula. Na cozinha, longe do olhar alheio, mordeu o primeiro pedaço. Mas quando sentiu um forte repuxo, debateu-se, o gosto metálico do anzol no céu da boca.

 

Em vão. Fisgado até a sala, arrastado pelo chão, foi pego com mãos fortes e rudes pelo Pescador, que o colocou no cesto, pôs fim à pescaria e sumiu.

 

(Conto extraído do Fábula Portátil, blog com parceria de Rosa Amanda Strauzs)

Fiz um curso de leitura rápida e li “Guerra e Paz” em vinte minutos. Fala sobre a Rússia. woody-allen

 

Na Califórnia não se deita o lixo fora. É reciclado e transformado em programas de TV.

 

Quando eu era pequeno os meus pais descobriram que eu tinha tendências masoquistas. Então passaram a bater-me a toda a hora para ver se eu parava com aquilo.

 

Fui expulso da universidade por causa do exame de Metafísica. O professor acusou-me de estar a olhar para a alma do rapaz do lado.

 

Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro.

 

 

raindrops

A chuva aparece de mãos dadas, finíssimas, com o mundo. Veio um cavaleiro abstrato e feroz e cortou a delinqüência da água em mil cabeças. Descem degoladas em choro, em rios para acontecer, em tempestades mínimas e pegajosas. Não se pode fotografar a chuva por inteiro. Nem defini-la em serões e estranhos barulhos pelo embate das coisas que são fustigadas por quase invisíveis chicotes de água e frio. Mesmo assim, deixo uma prece. Que a chuva (as menores são vendidas em borrifos) não venda a sua noção, nem seja desenraizada de seus nimbos e cúmulos, nem transformada em medição pluviométrica para geógrafos. Não resisto a um ataque de lirismo quando vejo o seu efeito: um pequeno poste resistindo em sua fraca luz ao vapor dos deuses. Há beleza nesta solidão.

 

Mínimas

  

Catalogar livros será o meu ofício nos próximos meses. Acho que minha biblioteca alcançou um número suficiente para isso. Não tenho dificuldades, claro, em localizar o que quer que seja, de um romance sobre os tártaros, um poema sobre uma zebra, resenha de filmes, zoologias fantásticas. O gosto está mesmo no exercício da coleção, de estabelecer uma ordem, de administrar o butim literário. Um programinha existe e é gratuito, o Minibiblio.

 

Orquestra Sinfônica de São Paulo

 

Oportunidade única, assistir a apresentação da Osesp, sob a regência do maestro John Neschiling, dia 7 de novembro, às 20h na praia de Tambaú. No programa, Russlan e Ludmila”, de Mikhail Glinka. Continua com “Il Guarani: Abertura”, de Antônio Carlos Gomes e “A Força do Destino: Abertura”, de Giuseppe Verdi. Ainda poderão ser apreciados o “Concerto nº 1 para Violino em sol menor, Op.2 6: 3º movimento”, de Max Bruch, e “Reisado do Pastoreio: Batuque”, de Oscar Lorenzo Fernandez. Um grande final está programado para fechar o concerto. Serão executados “Capricho italiano, Op.45”, de Pyotr I. Tchaikovsky, “Os Mestres Cantores de Nümberg: Abertura”, de Richard Wagner, e uma composição bem conhecida dos paraibanos, “Bolero”, de Maurice Ravel.

 

Classificados

 

 

Vende-se

uma casa assombrada

quase sem mistério

varanda, salas e quartos

e com os fundos

para o cemitério.

 

Vende-se

com garantia de sossego.

Só tem uns barulhos

de fato – e não é rato:

é o fantasma que sempre

tropeça nos sapatos.

 

Vende-se

com portas que rangem,

janelas que batem,

objetos que voam

de supetão.

 

Tudo no mais perfeito estado

de assombração.

 

 

(Poema que integra minha mais recente obra infantil, ainda sem título)

julho 2018
S T Q Q S S D
« jan    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  
Anúncios