You are currently browsing the category archive for the ‘Da gaveta’ category.

A vida que ando colecionando aqui, no meu bairro (assumo a posse sempre do lugar que quero estar) são pequenos flashes banais que não querem colar para formar algo de sentido. Não importa muito. Viver às vezes só pede a sensação de estar vivo – e tomar consciência disso sem imposições maiores do que falava o poeta português: o que em mim sente está pensando.

Então saio na hora do crepúsculo ou no vai-e-vem dos carros, ou mesmo na sensação de que a tarde morre por cima do formigueiro humano. Não, não é uma confissão enquadrada em obviedades. Eu cruzo uma pequena parte da cidade com uma identidade que ele, o bairro, conseguiu impor. Eu sou um pequeno grão nesse areial. Com a sensação de que pesa a sacola do supermercado e as sandálias que deixam, agora, meus pés respirarem.

Anúncios

Se eu morrer um dia,

se minha sombra não tiver um corpo para se escorar,

se eu tentar fazer barulho e só sair mímica,

se eu descobrir meu nome apagado

e se eu me olhar não espelho e não me achar,

se um dia não precisar de maçaneta

para ir de um cômodo a outro,

se eu passar pela cozinha e não sentir fome,

e se eu não tiver ouvidos para o telefone,

e pé e topada não se toparem,

e se a casa ficar assombrada com minha risada,

mesmo assim, a todo custo,

se eu conseguir chegar até você,

promete, jura que promete

não levar um baita susto?

Bato na palavra até que ela me dê a alma.

Mais ou menos isso que o querido Ronaldo Monte disse em depoimento ao Tome Prosa, Tome Poesia. Concordo. E acrescento: se todos os que mexem com a palavra entendessem isso e apresentassem um projeto mais acabado, mais coerente. Não é o que acontece. Acontece uma grande surra e as palavras quedam inermes, exangues. Fica a sensação de que a alma fugiu entre um sopapo e outro. Ronaldo, poeta, cronista, contista e romancista. Em todo projeto seu, a sensação de que soube domar a palavra. Bateu e não levou.

 

Chega de medidas. Planejamos, centímetro a mais ou a menos, quando uma felicidade ou tristeza ganha relevo. Tentamos colocar tudo no mundo das corporações (eu ia dizer comparações). Se o saldo não for positivo, segundo a felicidade ou a ambição da moda, então, pronto, o script é pôr a angústia num vaso para que se contemple: são flores que segundo o ângulo, podem cheirar levemente ou parecer tolas demais para compor uma delicadeza. Delicado e humano se solidarizam. Mas apenas quando se perdem.

 

 

green_doorNa casa do romancista a porta da frente atraía histórias. Na verdade, personagens inconvenientes que, por algum motivo secreto, queriam saber mais sobre o sujeito que inventava vidas. Eram tolos. Respectivamente, um carteiro, um mendigo, a moça da avon. O romancista sentia no ar uma vibração de míssil, um risco no radar, um deja-vu. Chegava à porta e abria de par em par. E bastava olhar para o visitante, sentia uma enorme dor de barriga (era essa a reação ao querer escrever) e ia com maços de papéis para o banheiro. Os visitantes o achavam louco e saiam irritados.

Houve um tempo que se sentiu bloqueado. A mulher o tinha abandonado e os filhos só ligavam para pedir dinheiro através de uma conta. Desejava a vizinha, tinha uma foto de um flagrante no quintal, pernas descobertas, só não sabia que estava morta há alguns anos. Tinha rendido um conto, infelizmente, recusado por uma revista. Restava-lhe o recurso da  porta. Mas as pessoas não mais o visitavam. O carteiro pulava a casa. O mendigo arrumara um emprego. A moça da avon fora assassinada. Agora abria a porta de hora em hora. Até de madrugada. Não encontrava nada. Nem pessoas, nem eventos. Não chovia, nem acontecia terremoto, nem lufadas de vento.

Ele acreditou piamente que não ia escrever mais nada. Que a vida fronteiriça entre o que acontecia lá fora e na sua casa negava informação e lirismo. Decidiu vender a casa, fechar tudo, ir para o Caribe. Como não tinha nenhum objeto de valor, a não ser sua vida, que era móvel, deixou a porta levemente entreaberta. Como uma página em branco.

Tabacaria II

(ou um jeito atrevido de responder a Álvaro de Campos)

 

Do que sou feito

não me dou ao direito de saber do que sou feito.

Não sei do que sou feito, é uma certeza.

Tenho outras certezas.

Tenho belas e irreconhecíveis certezas.

São cadafalsos, me tiram o chão.

Estão no sangue, no mistério das coisas,

que não são coisas, mas maneiras de pôr o mundo

segundo certas posições, diagramas, teimosias.

 

Minha realidade, minha circunstância, essa clara

disposição de ir morrendo, um pouco em cada gesto.

Em cada poema, em cada tropeço, uma rua percorrida por vez,

em cada bonde perdido, em cada senha esquecida,

em cada dia suspenso nas bolhas do relógio,

numa religião inventada, numa fazenda distante

em que desejasse ferir a terra que um me tragaria.

 

Sou feito da minha falta.

Onde decidir que permanência? Mesmo à janela de uma aldeia

que não é minha, quando ouço pela primeira vez balidos

de ovelhas, esquecido do meu país de origem,

o que em mim decide o que nunca tive? A vida inventada

pode ser a mesma e original vida que vivem por nós.

Vivem-me os números, o que pensam de mim, meus pecados,

terras em que tatuei a forma efêmera dos meus sapatos,

rabiscos em alguma agenda esquecida, os livros que li,

tudo isso numa rua de sonho ou lembrança ou pó.

 

Não preciso provar que estou vivo. Também os fantasmas

somem ou aparecem mil e uma vezes ao dia e nem dão por isso.

Mesmo em excesso sou menos vivo do que aparento e nada

me assombra mais, nada é mais patético do que estar assombrado

em pleno sol, esse manto que nada mais é do que um cobertor

cansado sobre o ciclo da vida.

 

À parte tudo isso, tomo o meu café, de gole em gole

e vejo pequenos sinais que não me sabem a códigos,

nem me apetece colar teorias sobre a multidão e os rostos

e que histórias banais ou extraordinárias podem sair dali.

 

Resta-me deixar em versos

(sombra de outros versos e bem melhores)

o que não fiz, o que nunca farei,

– os materiais da vida não aceitam pactos

e suas tramas parecem existir tanto quanto

a Biblioteca de Alexandria.

 

E ainda acredito, sim, que há metafísica bastante nos chocolates.

Renato Alarcão in A cartomante

Renato Alarcão in A cartomante

A minissérie Capitu já terminou e ainda fico na dúvida se gosto ou detesto. Eu tenho essa mania, uma coisa no calor do momento me chama a atenção, e às vezes, me nubla – sobretudo em momentos em que tenho mil coisas para resolver e minha cabeça fica um tumulto. Depois, mais descansado, paro e penso. E leio matérias esclarecedoras que coloca um outro ângulo…por sinal, o ângulo que coincide com o que eu gostaria de ver. Acho que a coluna do Diogo Mainardi (veja no blog de Amanda K)tem suas sacadas sim. Os carvalhistas de plantão que me perdoem, mas ainda assim preferia ver a adaptação de Dom Casmurro com a pena da galhofa e da melancolia, um pouco menos over, menos circense. Até porque, como o amigo Linaldo Guedes citou, qual foi a última adaptação de fôlego que seguiu um bom e velho esquema começo-meio-fim? Tudo agora são pirotecnias, como se só valessem, na transposição do papel para a tela, unir obra e espetáculo visual, em detrimento até da alma narrativa da história. Gostei, confesso, de muitas cenas da minissérie – e os olhares de ressaca foram fiéis. Não tiro o capricho cenográfico nem as sacadas visuais de Luiz Fernando Carvalho. Mas Machado já é denso o suficiente, tem texto que competentemente levaria força dramática e humor em doses fartas numa adaptação fiel sem estar sob a lona do circo.

 

Sobre conto e roteiro

 

Segunda-feira, ontem, foi um dia interessante para mim. Fui convidado por Bertrand Lira para uma conversa com sua turma de Roteiro, lá no Decom-UFPB. Na pauta do encontro, para conversar sobre adaptação e também um comentário crítico sobre dois contos meus: A mulher inflável e Casa de bonecas. Eu sempre vejo com simpatia esses encontros para falar de literatura, e quem sabe, aprender um pouco mais outros olhares. E esse estímulo é minha melhor alavanca. Fica o bom registro de mais um momento que guardo com carinho.

Nunca fui fã de registros em diário. Admiro essa literatura e esses escritores classificados como mnemônicos: talvez do hábito de compor (como uma ginástica) sempre e com mais eficiência a fluida matéria da memória torne a coisa mais ou menos controlada e possível. No meu caso, acho um saco ter que dizer, em vez de uma das façanhas compatíveis a de Hércules, a jornada banal de uma manhã tentando consertar o ralo da pia, o passeio matinal com a tartaruga ou a descida aos infernos às gavetas mofadas do meu quarto. Não que eu não ache minha vida interessante. Talvez seja meu hábito gravar um diário hipotético na cabeça e depois passar a limpo na forma de poemas, contos, crônicas e cartas. Porque a contrapartida seria um diário da “vida que eu queria que fosse”. Seria um realismo mágico de ressonância cotidiana. Seria Gabriel García com Kafka. Pernalonga com Dick Tracy. Algo do tipo:

 

Quarta-feira, 6.15

Alguma coisa no almoço traiu meu metabolismo, tornando-me tão leve que tive dificuldades de desgrudar do telhado. Sorte que minha família tinha viajado.

 

Segunda-feira, 9.40

Compras no mercado de Bombaim e logo em seguida, passeio no Hyde Park, em Londres. A bateria do teletransportador 5.0 Beta estava no finzinho, tive que voltar em átomos pra casa.

 

Domingo, 11.00

Hoje acordei transformado num imenso crocodilo e a cauda destruiu a base do criado-mudo. Terei problemas de locomoção nesta manhã. Cancelo o cinema ou espero passar a metamorfose?

Todo poeta é o que deve ser: um ser de imprevisibilidade. Pegar o seu “baú de espantos” e largar no chão da realidade seus objetos pontiagudos, seus brinquedos pensantes. Não importa se o formato, a língua original, seja francês, inglês, português, javanês. Para o caso da língua traída, uma boa tradução poderá resolver o problema.

O imprevisível de que falo é Jacques Prévert, poeta francês do cotidiano, domador dos temas simples, de sua fauna de bichos , de suas cenas surreais.

Lançado pela Cosac e Naif, Dia de Folga tem tradução do poeta Carlito Azevedo, ilustrações de Wim Hofman e dezesseis poemas que aliam espontaneidade com irreverência. Algumas peças são conhecidas do público prevertiano, como o tocante Para fazer o retrato de um pássaro:

 

(…) fazer depois o retrato da árvore

reservando o galho mais belo de todos

para o pássaro

pintar ainda a folhagem verde e o frescor do vento

a poeira do sol (…)

 

Prévert é instigante. Ele arca com suas crueldades do mínimo cotidiano. Seus poemas agradam porque soam como a carta branca para a artimanha longe dos adultos. E sua ironia soa como uma gargalhada, uma peça que prega no óbvio. Como no poema que conta a história do gato que comeu o pássaro pela metade, deixando uma menininha inconsolável pela crueldade. Tudo uma preparação para ouvirmos a voz lírica do gato dizer, no verso final: “Nunca devemos deixar as coisas pela metade”.

Os poemas de Dia de Folga também são característicos de uma poesia que foge dos padrões esperados. Versos longos, quase sem rimas, histórias que parecem não primar pela linha lógica de certa poesia comportada e pedagógica. Muitos paralelismos, muitas repetições para causar um efeito nada tedioso. Como no poema O homem do farol adora os pássaros: a preocupação ecológica provoca, em vias indiretas, um desastre. O cuidadoso faroleiro decide apagar a luz do farol para evitar pássaros que tombam ofuscados, abatidos, mortos. E o resultado faz a ironia do poema crescer aos nossos olhos:

 

(…) E apaga tudo, pra valer

 

Ao longe, um navio naufraga

um navio que chegava das ilhas

um navio carregado de pássaros

milhares de pássaros das ilhas

milhares de pássaros afogados.

 

Ou seja, um livro que pelo apuro visual, consegue capturar a inteligência do leitor, de qualquer idade.

endereço

quem

interessar possa

qualquer runa ou carta de tarô

ou mesmo um hipocondríaco signo

do zodíaco cismar de mim,

faça de conta que eu não existo

ou tente, ao menos, reduzir-me a um

cisco, um sismo mínimo, uma

falha nas linhas da mão

(ou contramão)

a quem interessar

a quem

a.

 

 

André Ricardo Aguiar

Nunca na minha vida tive problemas com seres imaginários. Mesmo porque, delatei-os todos ao meu psicanalista.

Até descobrir que ele era produto, também, de minha imaginação. O que me irrita é o fato, que considero uma traição, de que ele diz o contrário. De que eu sou o fruto da imaginação dele. Ledo engano, minha cara abstração. O consultório, a rua, o bairro sequer existem. Eu mesmo fui à região e comprovei. Vi uma funerária azul, uma praça e um ponto de ônibus. E nunca ouviram falar em clínica ou consultório por ali.

Volto agora soberbo ao lugar de onde eu vim. Mas assalta-me uma dúvida: de onde eu vim?