Está próximo o Natal, uma época em que reminiscências se misturam com tomadas de posição. Além de algumas certezas. Época de presentes? Ótimo ganhar presentes. Eu que sou pai sei bem o que é isso. A cada época, cada degrau,  vejo minha filha e constato acima de tudo cumplicidade. Fiz o texto que segue alguns anos atrás. É uma forma de dizer o quanto a amo, nesse rara e fiel relação que perdura, que melhora com o tempo.

 

* * *

Uma vez pensei na infância como um vaso de gerânios, um vaso esteticamente posto numa janela com paisagem ao fundo. Não se sabe exatamente o que é a infância no momento em que vivemos a tal. Assim o efeito da natureza dos gerânios: por si só eles espantam, causam atenção. Imaginar a paisagem com eles, duplo efeito, dupla carpintaria do olhar. Lembro o que era a minha infância de menino e continuo tendo a chance de ser o mesmo menino por dentro, um pouco mais envelhecido com os mesmos brinquedos. E pronto para ser confidente de minha filha.

Aliás, uma menina em que me pego no espanto, como se eu a flagrasse no bico de pena, tentando entender seus contornos psicológicos, sua personalidade (um gerânio saindo lentamente). Uma menina que repete outros rituais da descoberta. Brinca com as palavras no lugar do dominó ou do baralho.

Ainda não é a adolescente, mas posso divisar a linha desse horizonte de conflitos. Posso demarcar noites de conversa: a substituição das histórias com finais felizes pela aceitação da realidade com finais intercambiáveis. Finais abertos. Com um olhar de espanto, um olhar clariceano, me pego desenhando suas camadas, seus olhares de reconhecimento do terreno da vida. Menina irrequieta, filha do menino que pára e pensa o que é ser pai. Bem sei o que é isso: minha inquietude não me fecha no compartimento de minha geração. Antes, me anima a tocar os extremos.

Minha filha é um vaso de gerânios, é um toque para a linguagem. Não há nenhuma urgência nela. Ela cresce acima do tempo com a propriedade dessas folhas que sustentam uma paisagem, independente de qualquer estação. De onde ela retira suas frases, eu não sei. Imagino um baú de frases novinhas, a espera da cobertura dos primeiros significados. Para ela, a palavra ciúme é um brinquedo em que ainda não soube o botão para acionar. Ou desilusão, ou saudade, que ainda vão ganhar novos ângulos. Os filhos estão voltados para as próximas horas. A antiguidade para eles é uma idéia nova, quase futura.

A filha que tenho não sabe da minha infância, a não ser que eu me disponha a ser a maturidade dela. De puxar para um canto do sofá e falar do que mudou da minha para a sua infância. Sobretudo porque a infância de uma menina tem outras nuanças. Outros silêncios, outras as maneiras de preencher o dia, outro o calendário, outros os medos. Quero entender minha filha de modo simples, mas ela se adianta e me entende com uma fórmula mágica. Quem conta as histórias? Ela. Quem me dá notícias do mundo pequenino? Ela. Sempre estou a par da cartilha das coisas claras. A lição do presente é o futuro dormindo no quarto ao lado. A mão do tempo é a duplicação da minha mão, que acaricia seu rosto, o rosto de minha filha, pacientemente pintada em aquarela

 

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Um comercial  que só os japoneses poderiam conceber…

Renato Alarcão in A cartomante

Renato Alarcão in A cartomante

A minissérie Capitu já terminou e ainda fico na dúvida se gosto ou detesto. Eu tenho essa mania, uma coisa no calor do momento me chama a atenção, e às vezes, me nubla – sobretudo em momentos em que tenho mil coisas para resolver e minha cabeça fica um tumulto. Depois, mais descansado, paro e penso. E leio matérias esclarecedoras que coloca um outro ângulo…por sinal, o ângulo que coincide com o que eu gostaria de ver. Acho que a coluna do Diogo Mainardi (veja no blog de Amanda K)tem suas sacadas sim. Os carvalhistas de plantão que me perdoem, mas ainda assim preferia ver a adaptação de Dom Casmurro com a pena da galhofa e da melancolia, um pouco menos over, menos circense. Até porque, como o amigo Linaldo Guedes citou, qual foi a última adaptação de fôlego que seguiu um bom e velho esquema começo-meio-fim? Tudo agora são pirotecnias, como se só valessem, na transposição do papel para a tela, unir obra e espetáculo visual, em detrimento até da alma narrativa da história. Gostei, confesso, de muitas cenas da minissérie – e os olhares de ressaca foram fiéis. Não tiro o capricho cenográfico nem as sacadas visuais de Luiz Fernando Carvalho. Mas Machado já é denso o suficiente, tem texto que competentemente levaria força dramática e humor em doses fartas numa adaptação fiel sem estar sob a lona do circo.

 

Sobre conto e roteiro

 

Segunda-feira, ontem, foi um dia interessante para mim. Fui convidado por Bertrand Lira para uma conversa com sua turma de Roteiro, lá no Decom-UFPB. Na pauta do encontro, para conversar sobre adaptação e também um comentário crítico sobre dois contos meus: A mulher inflável e Casa de bonecas. Eu sempre vejo com simpatia esses encontros para falar de literatura, e quem sabe, aprender um pouco mais outros olhares. E esse estímulo é minha melhor alavanca. Fica o bom registro de mais um momento que guardo com carinho.

Os argonautas


Os mortos com seus sapatos ébrios.

Quem os detém? Beberam os licores

da perda e andam por corredores

com suas certezas de pó, desafagos,

suas bíblias da inércia.

Parecem dizer algo, anúncio de verme.

Às vezes, cismam e por instantes

folheiam o vento, habitam

uma fotografia, pesam uma lágrima.

Não os tivessem tocado, e o batismo

geral  ou a relva inconcebível

voltariam a arquivá-los

numa lua de esquecimento.

metrovi

 

Naquela estação tem um metrô fixo. Proposta de uma pequena empresa para os sem destino. Para quem não sabe onde pousar, para os cansados das chegadas e partidas, para os excêntricos. Um metrô com o mesmo comprimento da estação. Cujas portas se abrem, onde os passageiros tomam os assentos e recebem, através de projeções, imagens corridas de paisagens, bairros felizes, subúrbios idílicos. O metrô tem motores que acionam a trepidação e uma voz que anuncia paragens. É só um pouquinho mais caro que o metrô convencional. Mas já é um grande passo que o metrô não avance um metro.

 

André Ricardo Aguiar

newseumComo ter na mesa, logo cedinho, a primeira página de um jornal da Dinamarca, o The Guardian, de Londres e a Gazeta Tema, da Albânia? Simples e divertido. É a idéia do interessante Newseum.  Basta dar uma olhadinha no mapa e clicar nos pontinhos, onde cada um representa um determinado jornal. O acesso é apenas para a primeira página, mas dar um visto nas principais manchetes do mundo, atualizadas todo dia, não é pouca coisa. Merece uma olhada.

 

CultPB

Hoje tem lançamento do website Cultpb (www.cultpb.com) no Casarão 34, às 19h, localizado na praça Dom Adauto, centro de João Pessoa. Fruto das reflexões das jornalistas Taísa Dantas e Érica Chianca. A matéria completa está no blog do jornalista Linaldo Guedes.

 

DA SÉRIE: CULTURA INÚTIL

Quem inventou o emoticon?

  

Como notar quando uma pessoa está sendo irônica ou rindo de uma piada quando ela está escrita na tela do computador? Em 1982, o professor Scott Fahlman sugeriu aos u- suários da lista de avisos eletrônica (BBS – uma tia-avó do orkut) da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA: “Coloque do lado da frase um :-)”. Hein? Ele explicou: “Incline a cabeça para ler”. Os professores acharam a idéia genial – afinal, uma carinha sorrindo era melhor que escrever “muito engraçado”. Na mesma discussão, alguém sugeriu uma alternativa: “Que tal um &? Parece um barrigudinho se contorcendo de rir!” Silêncio. O simpático dois-pontos, hífen e parêntese ganhou a disputa. Logo variações da idéia original para representar as emoções começaram a ser formuladas e foram batizadas de emoticons (“emoção + ícone”, em inglês).

 

Na Ásia, o pessoal não fica com torcicolo para ler os emoticons. Tudo é na horizontal. A risada, por exemplo, é (^.^). Isso porque, tradicionalmente, lá a emoção é mais delimitada pelos olhos que pela boca. No MSN dos japoneses, mande um (*_*) para mostrar admiração e um (>_<) quando estiver com raiva.

  

-(_8-(!) (Homer Simpson)

 

8:-) (Óculos na testa)

 

C|:-= (Charlie Chaplin)

 

:)(: (Beijo na boca)

 

%*@:-( (Ressaca)

 

:<}) (Sorriso com bigode)

 

@}—,— (Rosa)

 

\˜/\˜/ (Brinde)

 

Pedro Burgos, in Superinteressante.

Você que não teve tempo, condições (leia-se saco) pra ler aqueles grandes clássicos da literatura que todo mundo discute com pose de intelectual (mas que ninguém leu também), agora vai poder participar das discussões e ainda dar pinta de entendido com as novas “Versões Condensadas dos Clássicos da Literatura“!

 

Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust.

Gallimard, 1617 páginas.

 

Resumo: Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486. vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1044, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (pág. 1433, vol. VII) onde estão todos muito velhinhos. E pronto.

 

Guerra e Paz, Leon Tolstoi.

Chartreuse,1200 páginas.

 

Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro.

 

Os Lusíadas, Luís de Camões.

Editora Lusitania, um monte de páginas.

 

Resumo: Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas.

 

Madame Bovary, Gustave Flaubert.

Pléiade, 778 páginas.

 

Resumo: Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre.

 

Romeu  e Julieta, William Shakespeare.

Oxford University Press, 437 páginas.

 

Resumo: Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada,uma briga danada, muita gente se machuca. Então um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era energético.

 

Hamlet, William Shakespeare.

Oxford University Press, mais de 300 páginas, pô!

 

Resumo: Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe, isso depois de falar com uma caveira e antes de morrer assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Ufa.

 

Édipo-Rei, Sófocles.

Várias edições, cada uma maior que a outra

 

Resumo: Maluco tira a maior onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta.


flipEu poderia começar o relato com o sentido de acordar sob protestos, da dificuldade de armar o pesado mecanismo do dia, e entender que colegas de ofício também estão no mesmo barco, e é sábado e faz sol e não é freqüente que se saia de uma cidade ainda adormecida de eventos e se vá para outro lugar, outras praias, outras literaturas – na verdade, o encontro delas, da nossa e dos outros, o que dá na mesma exatamente quando o evento é um misto de porto e turismo – no bom sentido, claro.

Com uma van garantida, um pouco da Paraíba teve voz na Festa Internacional de Porto de Galinhas, em Pernambuco. Da nossa trupe, poetas como Linaldo Guedes, Sérgio de Castro Pinto, Antonio Mariano, Ikaro Marx, além de Amanda Karla, Amanda 2, Bia Kelly e Veruza. Viagem prazerosa, e de certa forma, novidade para mim, afinal, aportei como marinheiro de primeira viagem.

A manhã foi produtiva, dentro do possível. A única ressalva é o pouco tempo que se reserva aos debates, limitando a fala dos participantes e, por conseqüência, fica-se com a impressão de que se raspou a superfície do tema. Ainda assim, as primeiras palestras tiveram bons momentos. Na primeira mesa, Sergio de Castro Pinto integrou-se a nomes como Cláudio Willer, José Paulo Cuenca, Raimundo Carrero, Bruno Pffardini e Vicente Franz Cecim para discutir a literatura contemporânea feita no Brasil. Na mesa seguinte, foi a vez de Linaldo Guedes, José Neumanne Pinto, João Gabriel de Lima, Quincy Troupe, Ronaldo Bressane, Raimundo Gadelha, Flavio Chaves e Garibaldi Otávio, com o tema: Quando o escritor é editor.

Em seguida, Márcia Maia, poeta e amiga, apresenta a mesa a Trajetória Off Flip na Fliporto, coordenando um bate-papo com Ovídio Poli Júnior e Lucila Nogueira, além de leitura de texto com Flávio de Araújo. Uma escapadinha para um lanche – não tinha nada no estômago desde que saí de João Pessoa. Uma escadaria me leva para o salão. Entre xícaras de café e bolinhos, conheço o escritor cubano José Millet, que me presenteou com um livrinho sobre Ali Primera, cujo subtítulo me põe na mesma ignorância: padre cantor del pueblo. Serve como registro e terei curiosidade de colocar alguma impressão depois da leitura arranhada de espanhol.

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Recital de Poesia Paraibana

Em seguida, pausa para almoço no belo litoral porto-galinhense (se diz assim?), juntando culinária e essa lacuna abstrata que o estômago cria. A tarde toda fomos ao sabor da corrente, com pequenos flagras de globais, um repórter, um ministro, mais paisagem marítima, etc. No começo da noite, rumo ao recital na Praça das piscinas naturais, com a presença de Bráulio Tavares, Raimundo Gadelha, Lenilde Freitas e os já citados andarilhos – e com direito a palhinha de Augusto dos Anjos, sempre atual. A apresentação ficou por conta de Heloísa Arcoverde de Morais (que também aproveitou para lançar a revista Eita!).

Enfim, não vou me estender mais do que já está disponível aqui: www.fliporto.net A viagem cumpriu-se com o sabor da união sempre esperada entre que vivem a literatura de todas as formas. De minha parte, Porto de Galinhas já é um itinerário a se pensar. Quem sabe nas próximas férias?

End:

 

Não há nada a fazer,

eu moro onde me perco.

São as mobílias que anotam

meus endereços mesquinhos:

a rua cada vez mais curta,

o arrabalde das folhas,

resquícios.

 

Não há muito o que guiar.

Habito sem direção

a treva que quase sufoca

tentando alcançar a lâmpada

dos cômodos da memória.

 

Mudar ou perder são continentes

idênticos, passagens

só de ida.

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Como poucos, cultivava a solidão. Quando, findo o trabalho na fábrica, rumava ao ponto de ônibus. Ou mesmo seguindo as anáguas da lua. Exausto, ancorava o dia e ligava a tv.

 

Uma noite encontrou o Pescador sentado na beira do sofá. Vara de pesca em punho, jogava a linha no fundo da sala e, intruso, esperava. Ficou sem saber o que dizer. Não conseguiria removê-lo do sofá. Com o passar dos dias, acabou aceitando a convivência. Mas evitava-o. Pôs a tv no quarto, em respeito ao silêncio do Pescador. E lia Hemingway na cozinha.

 

Era difícil suportar aquele código de espera, a economia de movimentos, o respirar matemático do sujeito. Além disso, aqui e acolá, surpreendia a linha costurada à sombra dos móveis, a tecer emboscadas. De uma feita, tomou do anzol sua meia de lã. Outro instante, feriu o tornozelo ao sair do banheiro. O Pescador apenas desenrolava ou enrolava o molinete, trepado no sofá, como se fosse um barco imóvel. Perscrutando os cômodos da casa.

 

Um dia o homem trouxe uns bolinhos de bacalhau.

Cuidando não se enredar na linha espalhada ali, foi desembrulhando a gula. Na cozinha, longe do olhar alheio, mordeu o primeiro pedaço. Mas quando sentiu um forte repuxo, debateu-se, o gosto metálico do anzol no céu da boca.

 

Em vão. Fisgado até a sala, arrastado pelo chão, foi pego com mãos fortes e rudes pelo Pescador, que o colocou no cesto, pôs fim à pescaria e sumiu.

 

(Conto extraído do Fábula Portátil, blog com parceria de Rosa Amanda Strauzs)

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